O psicanalista nos dispositivos da Saúde Mental

  • 11 out

A loucura representa um desafio crucial para a ordem simbólica estabelecida. A loucura não é necessariamente subversiva em relação à ordem social, mas o grande problema representado pela loucura é a subversão dos valores que estruturam certa ordenação simbólica do mundo em que vivemos, ordenação simbólica que se constitui em torno da concepção de um ser humano universal e abstrato, anterior à própria sociedade em que vive, e que se junta para viver em sociedade a partir de um contrato social e político.

A idéia de contrato pressupõe um individuo racional, senhor de si, responsável por seus atos. A loucura aponta de maneira radical para o que está além do contrato social, para alguma coisa que ficou de fora e não pode ser controlada.

O analista deve sustentar a sua oferta de que o psicótico trabalhe na sua psicose e recolher os sintomas e fenômenos da estrutura, menos interessado na terapêutica imediata, que é indispensável, mas para a qual existe todo o arsenal de cuidados, dos fármacos ao suporte social. Ele deve ser testemunha e mesmo destinatário de uma produção refrataria às nossas operações de dar sentido. O analista deve estar precavido das aplicações simplistas na experiência concreta do tratamento das psicoses, que costumam servir para que domestiquemos a estranheza que a psicose nos provoca, inserindo-a num esquema de fácil compreensibilidade e produzindo uma espécie de otimismo reconfortante.

Por isso o lugar da clinica deve ser o da circunscrição. Circunscrição ética da história pessoal do sujeito, da lógica do desencadeamento das suas crises, do monitoramento contínuo dos efeitos das intervenções calculadas e das inesperadas, ocorridas em seu ambiente de tratamento, das suas palavras e atos, da resposta individual às intervenções químicas, da sua posição diante do que se fala dele e daquilo que lhe é absolutamente próprio e intransferível. Circunscrição de tudo que possa se constituir em verdade, para que, em condições complexas e diante de determinados acontecimentos, o sujeito possa advir. Sujeito de um processo clínico. Produto de uma transformação operada pela clinica. Algo que, pela via do discurso, possa dissipar as infinitas pressões de adaptação social e convocar aquela fração mínima de cada ser falante – simbólica ou protética – que pode lhe dar a chance de afirmar tanto a sua radical diferença em relação aos outros quanto seu direito de participação no teatro do mundo. Sujeito, enfim, que estaria no horizonte de cada ação clinica do trabalhador de saúde mental relacionada ao corpo, a fala e a circulação social.

AUTORA: Maria Luisa Rodriguez – @mlrmarialuisarodriguez

Analista; Especialização em Psicanálise e Saúde Mental pela UERJ, Mestre em Teoria e Clinica Psicanalítica pela UERJ; Doutora Em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela Universidade Veiga de Almeida; Professora e Supervisora Clinica do Curso de Psicologia da UNIABEU;

mlrmarialuisarodriguez@gmail.com

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