TDAH: o que acontece com meu filho?
Vamos conversar sobre o que acontece com seu filho! Primeiro tome cuidado pois estaremos entre o rótulo e o funcionamento real da mente. Quero te dar um olhar clínico, científico e humano
Nos últimos anos, poucos temas ganharam tanta visibilidade quanto o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Ele aparece nas escolas, nos consultórios, nas redes sociais e nas conversas familiares. Pais se preocupam, professores sinalizam, adultos começam a se reconhecer em descrições que antes pareciam distantes.
Mas junto com essa visibilidade, cresce também um risco: reduzir o TDAH a um rótulo rápido, a uma explicação simplificada para comportamentos complexos.
Este texto propõe um caminho diferente. Um caminho que passa pela ciência, mas que não abandona a clínica. Um olhar que reconhece o TDAH como um fenômeno neuropsicológico, mas que também considera o campo relacional, o contexto e o modo singular de cada pessoa estar no mundo.
O que é, de fato, o TDAH?
O TDAH é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por padrões persistentes de:
- desatenção
- impulsividade
- hiperatividade
Esses padrões não são episódicos. Eles são consistentes ao longo do tempo e geram prejuízo funcional em diferentes áreas da vida.
Segundo o DSM-5-TR (American Psychiatric Association, 2022), o diagnóstico exige que os sintomas estejam presentes em mais de um contexto (por exemplo, casa e escola) e interfiram no funcionamento cotidiano.
Do ponto de vista neurocientífico, o TDAH está associado a alterações nas chamadas funções executivas, que envolvem:
- controle inibitório
- memória de trabalho
- planejamento
- regulação emocional
Essas funções dependem principalmente do funcionamento do córtex pré-frontal e de circuitos dopaminérgicos. Pesquisas indicam diferenças na conectividade neural nessas regiões em indivíduos com TDAH (Faraone et al., 2021).
Mas aqui é importante fazer uma pausa.
Explicar não é reduzir.
Dizer que há uma base neurobiológica não significa ignorar o contexto, a história e as relações. A mente não é apenas cérebro — ela é também experiência.
Para além do sintoma: o erro de olhar apenas para o comportamento
Na prática clínica, é comum receber crianças descritas como:
- agitadas
- desatentas
- impulsivas
- “difíceis”
Mas a pergunta que precisa ser feita não é apenas “o que essa criança tem?”.
A pergunta fundamental é:
“o que está acontecendo no campo dessa criança?”
A perspectiva gestáltica, especialmente inspirada em autores como Violet Oaklander (2006), nos convida a olhar para a criança como um organismo em relação com o ambiente, buscando formas de ajustamento criativo.
Ou seja, o comportamento não é um erro.
É uma tentativa.
Uma tentativa de lidar com algo que, muitas vezes, ainda não pode ser simbolizado.
Uma vinheta clínica: quando a atenção não está onde esperamos
Em um atendimento clínico, uma criança de 8 anos chegava com a queixa de “não prestar atenção em nada”. Na escola, era constantemente chamada de dispersa. Em casa, os pais relatavam irritação e dificuldade em seguir regras simples.
Durante a sessão, enquanto eu explicava uma atividade, ela se levantava, mexia em objetos, mudava de assunto.
Se olharmos apenas para o comportamento, poderíamos concluir rapidamente: TDAH.
Mas ao ampliar o olhar, algo começa a aparecer.
Quando convidada a desenhar sua rotina, ela representou a casa como um espaço vazio. Os pais, frequentemente ausentes por trabalho, apareciam distantes. Na escola, relatava dificuldade em se aproximar de colegas.
A “desatenção” não era ausência de foco.
Era um foco em outro lugar.
Era uma mente tentando lidar com um campo emocional pouco sustentador.
Na linguagem da Gestalt-terapia, poderíamos dizer que havia um ajustamento criativo: a criança se movia, desviava, evitava — não por incapacidade, mas como forma de autorregulação.
Isso não exclui a hipótese de TDAH.
Mas impede um diagnóstico apressado e descontextualizado.
O que a ciência nos mostra (e o que ela não resolve sozinha)
A literatura científica é consistente em mostrar que o TDAH tem base neurobiológica significativa.
Estudos com gêmeos indicam herdabilidade entre 70% e 80% (Thapar & Cooper, 2016). Além disso, medicamentos estimulantes, como o metilfenidato, apresentam eficácia robusta na redução de sintomas (Biederman & Faraone, 2005).
Mas a própria ciência também aponta limites.
Pesquisas mais recentes mostram que o TDAH não pode ser explicado apenas por um marcador biológico específico. Trata-se de um fenômeno multifatorial, que envolve:
- genética
- ambiente
- experiências precoces
- relações familiares
- demandas escolares
Ou seja:
não existe um único TDAH — existem múltiplas formas de funcionamento que recebem esse nome.
O TDAH na infância: quando o problema aparece na escola
A escola costuma ser o primeiro lugar onde o TDAH se torna visível.
Isso porque ela exige:
- permanência prolongada em tarefas
- controle do comportamento
- organização
- atenção sustentada
Mas aqui surge uma questão importante:
A escola está preparada para diferentes formas de funcionamento?
Muitas vezes, o que é interpretado como “déficit” pode ser também um descompasso entre:
- a forma como a criança aprende
- e a forma como o ensino é estruturado
Isso não invalida o diagnóstico, mas amplia a compreensão.
Adolescência: quando o sofrimento se intensifica
Na adolescência, o TDAH pode assumir novas formas.
A hiperatividade física pode diminuir, mas surgem:
- inquietação mental
- impulsividade em decisões
- dificuldades acadêmicas
- baixa autoestima
Além disso, estudos mostram maior risco de:
- ansiedade
- depressão
- uso de substâncias
especialmente quando não há acompanhamento adequado (Shaw et al., 2014).
Vida adulta: o TDAH que não foi visto
Muitos adultos chegam ao consultório com uma sensação recorrente:
“Eu sei que sou capaz, mas parece que não consigo sustentar nada.”
Relatam:
- procrastinação
- dificuldade em organizar a vida
- sensação de mente acelerada
- dificuldade em concluir projetos
Muitas vezes, passaram a vida sendo interpretados como:
- desleixados
- preguiçosos
- desorganizados
Quando, na verdade, estavam lidando com um funcionamento diferente.
O diagnóstico tardio pode trazer alívio — mas também pode trazer luto pelo tempo não compreendido.
Diagnóstico: cuidado com a pressa
O diagnóstico de TDAH é clínico.
Não existe exame isolado que confirme o transtorno.
Ele deve envolver:
- entrevista detalhada
- história de desenvolvimento
- contexto familiar e escolar
- avaliação psicológica ou neuropsicológica
O maior risco hoje não é apenas o subdiagnóstico.
É o diagnóstico apressado.
Quando tudo vira TDAH, perdemos a capacidade de diferenciar:
- sofrimento emocional
- dificuldades pedagógicas
- questões relacionais
- e o próprio transtorno
Tratamento: mais do que reduzir sintomas
O tratamento do TDAH é, idealmente, multimodal.
1. Psicoterapia
Ajuda no desenvolvimento de:
- estratégias de organização
- regulação emocional
- construção de autoestima
Na abordagem gestáltica, o foco está na ampliação da consciência e na possibilidade de novos ajustamentos no campo.
2. Medicação
Os estimulantes são eficazes na redução de sintomas, especialmente em casos moderados a graves.
Mas é importante lembrar:
medicação organiza, mas não ensina.
3. Intervenções no ambiente
Mudanças na escola e na rotina são fundamentais:
- divisão de tarefas
- estruturação do tempo
- redução de estímulos excessivos
TDAH e criatividade: um outro olhar possível
Alguns estudos sugerem que pessoas com TDAH apresentam maior capacidade de pensamento divergente (White & Shah, 2011).
A mente que se distrai com facilidade também é a mente que:
- faz conexões inesperadas
- pensa fora do padrão
- cria soluções novas
Isso não romantiza o sofrimento.
Mas amplia a visão.
Entre o diagnóstico e a pessoa
Como psicólogo, ressalto que o maior risco da clínica contemporânea é confundir o nome com a pessoa.
O diagnóstico pode ajudar.
Mas ele nunca deve substituir a escuta.
O TDAH não é apenas um conjunto de sintomas.
É uma forma de estar no mundo.
E toda forma de estar no mundo pede compreensão antes de intervenção.
O papel do cuidado
Seja na infância, adolescência ou vida adulta, o TDAH exige um olhar integrado.
Um olhar que considere:
- o cérebro
- o comportamento
- as emoções
- o contexto
- as relações
É nesse ponto que iniciativas como o projeto Todos Cuidados se tornam fundamentais, ao oferecer um cuidado psicológico acessível e contínuo:
Porque mais importante do que rotular é cuidar de quem está vivendo aquela experiência.
Considerações finais
O TDAH não é moda.
Mas também não pode ser banalizado.
Entre negar e superdiagnosticar, existe um caminho mais responsável:
o caminho da escuta qualificada, do olhar clínico ampliado e do compromisso com o desenvolvimento humano.
Talvez a pergunta mais importante não seja:
“Essa pessoa tem TDAH?”
Mas sim:
“Como essa pessoa funciona — e como podemos ajudá-la a viver melhor a partir disso?”
Referências científicas
American Psychiatric Association. (2022). DSM-5-TR: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders.
Barkley, R. (2015). Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. Guilford Press.
Biederman, J., & Faraone, S. (2005). Attention-deficit hyperactivity disorder. The Lancet.
Faraone, S. et al. (2021). The World Federation of ADHD International Consensus Statement. Neuroscience & Biobehavioral Reviews.
Oaklander, V. (2006). Hidden Treasure: A Map to the Child’s Inner Self. Karnac.
Shaw, P. et al. (2014). Attention-deficit/hyperactivity disorder. The Lancet.
Thapar, A., & Cooper, M. (2016). Attention deficit hyperactivity disorder. The Lancet Psychiatry.
White, H., & Shah, P. (2011). Creative style and achievement in adults with ADHD. Journal of Creative Behavior.