Dr. Danilo Suassuna (2026)

O tratamento termina naquele dia, mas continua na vida. Continua na conversa durante a volta para casa, na mensagem que a pessoa ainda não sabe como responder, no compromisso de trabalho que precisa reorganizar e na expectativa pelo próximo resultado.

A reprodução assistida acontece dentro de uma rede de relações. Parceiros, familiares, amigos e profissionais participam dessa experiência de formas diferentes. Algumas presenças oferecem apoio. Outras acrescentam cobranças, mesmo quando a intenção é ajudar.

Para o psicólogo, conhecer essa rede faz parte da compreensão da demanda. Importa saber com quem a pessoa pode contar, quais conversas se tornaram difíceis e como o tratamento está atravessando seu cotidiano.

Esse olhar orienta o eixo Relações Humanas do I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna.

O projeto pode ser compartilhado, mas a experiência é singular

Quando um casal procura tratamento, existe a possibilidade de que ambos desejem um filho e vivam esse processo de maneiras muito diferentes. A disposição para conversar, o modo de buscar informações e o tempo necessário para tomar uma decisão precisam ser compreendidos em cada pessoa.

Na clínica, interpretar rapidamente essas diferenças pode dificultar a escuta. O silêncio precisa ser investigado antes de ser entendido como desinteresse. A busca constante por informações também merece ser compreendida em seu contexto.

Um estudo com 87 casais examinou conjuntamente estratégias de enfrentamento, apoio social e impacto psicossocial da infertilidade. Esse tipo de investigação considera a experiência dos parceiros em relação, reconhecendo que o acompanhamento precisa olhar para a dinâmica entre eles.

Na atuação psicológica, isso significa abrir espaço para necessidades que nem sempre aparecem nas consultas sobre procedimentos. A continuidade do tratamento, seus custos e os limites de cada pessoa precisam poder ser conversados.

Compartilhar um projeto exige espaço para expressar diferenças, inclusive quando elas são difíceis de ouvir.

A rede de apoio precisa conhecer os limites

Perguntas sobre gravidez podem parecer corriqueiras para quem faz e serem invasivas para quem recebe. Durante o tratamento, a pessoa também pode precisar decidir quanto deseja contar, para quem e em qual momento.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que a infertilidade pode estar associada a estigma, sofrimento emocional e consequências sociais importantes, com impactos particularmente graves sobre as mulheres em determinados contextos.

No acompanhamento, cabe compreender como essas pressões aparecem naquela história. Há pessoas que desejam compartilhar cada etapa. Outras preferem preservar informações. Essa escolha pode mudar ao longo do processo.

O psicólogo pode ajudar a elaborar limites, reconhecer vínculos de confiança e comunicar necessidades. Pedir companhia para uma consulta, solicitar que um familiar evite perguntas sobre resultados ou escolher alguém para conversar são possibilidades a serem construídas conforme a realidade de cada paciente.

A qualidade do apoio depende também da disponibilidade de quem está por perto para ouvir sem exigir explicações, oferecer soluções rápidas ou determinar como o outro deveria se sentir.

Apoio nas redes sociais: acolhimento e comparação

Grupos de pessoas em tratamento podem oferecer identificação e troca de experiências. Encontrar alguém que conhece a espera, os procedimentos e as dúvidas pode tornar a conversa mais acessível.

Uma revisão sistemática publicada em 2023 identificou benefícios nas comunidades on-line de apoio à infertilidade, como acolhimento e compartilhamento de experiências. Também apontou problemas relacionados a desinformação, confidencialidade e circulação de emoções negativas nos grupos.

Esses espaços precisam ser considerados na escuta clínica. Vale compreender como a pessoa se sente depois de participar, que informações leva para suas decisões e quais comparações passou a fazer.

O relato de outra pessoa pode oferecer companhia, mas tem limites como referência para um tratamento. Histórias semelhantes podem envolver condições clínicas distintas. A equipe precisa estar disponível para esclarecer dúvidas que surgem nessas trocas.

A relação com a equipe também faz parte do cuidado

Uma orientação pode ser tecnicamente adequada e difícil de compreender. Uma consulta pode apresentar todas as etapas do procedimento e deixar sem espaço uma preocupação central do paciente.

A maneira de comunicar resultados, explicar alternativas e receber dúvidas participa da experiência de cuidado.

As diretrizes da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a ESHRE, recomendam integrar o cuidado psicossocial à rotina dos serviços de fertilidade. Essa responsabilidade envolve os diferentes profissionais da equipe e a identificação das necessidades dos pacientes ao longo do tratamento.

Na prática, essa integração requer comunicação clara e oportunidade para retomar informações. Também exige atenção ao que o paciente consegue compreender e decidir naquele momento.

O psicólogo contribui ao identificar dificuldades de comunicação, acolher o impacto das informações e favorecer o diálogo, respeitando o sigilo e os limites de sua atuação. Sua presença na equipe pode ampliar a compreensão sobre necessidades que não aparecem diretamente nos exames ou nos protocolos.

Diferentes projetos de família precisam encontrar espaço

Os serviços de reprodução humana recebem pessoas com trajetórias e configurações familiares diversas. A OMS reconhece que o cuidado em fertilidade pode ser necessário para casais heterossexuais, casais do mesmo sexo e pessoas sem parceria, entre outros grupos.

Essa diversidade precisa estar presente na linguagem, nos formulários e nas perguntas feitas durante o atendimento. Presumir uma determinada estrutura familiar pode dificultar a expressão do projeto que levou aquela pessoa ao serviço.

Para a psicologia, a tarefa começa por conhecer a história: quem participa desse projeto, quais vínculos oferecem suporte e quais expectativas estão envolvidas. O atendimento precisa permitir que a pessoa apresente sua experiência sem ter de ajustá-la a um modelo previamente estabelecido.

Também cabe distinguir o uso de tecnologias reprodutivas de um diagnóstico de infertilidade. As razões para procurar esses recursos são diversas e precisam ser compreendidas individualmente.

Antes, durante e depois de cada tentativa

O cuidado psicológico pode acompanhar decisões iniciais, períodos de espera, resultados negativos, perdas e mudanças de planejamento. Também pode continuar quando ocorre uma gestação, conforme as necessidades identificadas.

A chegada de um resultado esperado não permite presumir como a pessoa se sente. Da mesma forma, interromper ou pausar o tratamento precisa ser compreendido a partir de seus motivos, limites e circunstâncias.

A atuação exige atenção à intensidade do sofrimento, ao funcionamento cotidiano e à necessidade de acompanhamento especializado. As diretrizes da ESHRE orientam reconhecer necessidades psicossociais nas diferentes etapas e encaminhar para cuidado específico quando necessário.

O compromisso do psicólogo é com a pessoa e com a qualidade do cuidado ao longo de sua trajetória. Isso inclui respeitar decisões, trabalhar expectativas e sustentar espaço para experiências que não seguem o caminho inicialmente imaginado.

Um encontro para aprofundar a atuação

Genética, epigenética e inteligência artificial ampliam o conhecimento e as possibilidades da reprodução humana. As relações atravessam o uso dessas tecnologias: é entre pessoas que uma informação é comunicada, uma decisão é discutida e um resultado é recebido.

O I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna reúne esses quatro eixos para aproximar ciência, prática profissional e cuidado.

Nascido da Pós-Graduação em Reprodução Humana Assistida, o encontro terá conferência magna, palestras e duas mesas-redondas com apresentação de pesquisas inéditas das alunas da pós-graduação, além do encerramento conduzido pela direção do Instituto.

Essa proposta expressa a Psicologia Atuante: formação que prepara o psicólogo para compreender demandas reais, dialogar com equipes e construir ações de cuidado nos contextos em que as pessoas vivem.

Participe do encontro e amplie sua atuação em reprodução humana e atenção psicossocial.

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Referências

GAMEIRO, S. et al. ESHRE guideline: routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction—a guide for fertility staff. Human Reproduction, v. 30, n. 11, p. 2476–2485, 2015. Acessar artigo.

LIN, J. W.; SHOREY, S. Online peer support communities in the infertility journey: a systematic mixed-studies review. International Journal of Nursing Studies, v. 140, 104454, 2023. Acessar artigo.

Cop­ing, social support and medical factors on psychosocial impact in couples experiencing infertility. Journal of Sex & Marital Therapy, publicação on-line em 2023. Acessar artigo.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Infertility. Acessar publicação.

⚠️ Nota editorial: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional, produzido por profissionais de Psicologia credenciados. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado. Em caso de sofrimento psíquico, procure um psicólogo ou serviço de saúde mental.