O Existencialismo na Gestalt-terapia: Implicações para a Prática Clínica
A Gestalt-terapia é uma abordagem psicoterapêutica que integra diversos fundamentos filosóficos e teóricos, e um de seus principais pilares é o Existencialismo. Inspirada pelas ideias de filósofos como Jean-Paul Sartre, Martin Heidegger e Karl Jaspers, essa abordagem propõe que a existência humana deve ser compreendida a partir das experiências concretas, das escolhas e da relação do indivíduo com o mundo.
Mas qual é a conexão entre Gestalt-terapia e Existencialismo? Como esses princípios se refletem na prática clínica? E de que maneira essa integração pode ampliar as possibilidades terapêuticas?
Neste artigo, vamos explorar os fundamentos do Existencialismo, sua influência na Gestalt-terapia e as implicações para o trabalho clínico, trazendo uma reflexão aprofundada e embasada em grandes autores da filosofia e da psicologia.
O Que é o Existencialismo?
O Existencialismo é uma corrente filosófica que surgiu no século XX e se baseia na ideia de que o ser humano não tem uma essência pré-determinada, mas sim constrói sua identidade a partir das experiências e escolhas que faz ao longo da vida.
Para os existencialistas, a liberdade é um elemento essencial da condição humana. Somos lançados no mundo sem um propósito fixo, e cabe a cada um de nós dar sentido à própria existência.
Principais conceitos existencialistas
🔹 Ser-no-mundo (Dasein) – O ser humano está sempre em relação com o mundo e suas circunstâncias (Heidegger, 1927).
🔹 Liberdade e Responsabilidade – Cada indivíduo é livre para escolher seu caminho, mas também é responsável por suas escolhas (Sartre, 1943).
🔹 Angústia e Incerteza – A liberdade de escolha traz consigo a angústia de não haver um destino predeterminado (Kierkegaard, 1844).
🔹 Autenticidade – O ser humano deve buscar viver de forma autêntica, assumindo quem realmente é (Jaspers, 1932).
🔹 Morte como Condição da Vida – A consciência da finitude dá sentido à existência e impulsiona o indivíduo a viver de forma plena (Heidegger, 1927).
Esses conceitos fornecem uma base filosófica para a Gestalt-terapia, pois ambos compartilham a visão de que o ser humano deve assumir a responsabilidade por sua própria vida e encontrar significado na experiência presente.
A Influência do Existencialismo na Gestalt-terapia
A Gestalt-terapia, desenvolvida por Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman na década de 1940, incorporou diversos princípios existencialistas ao seu modelo terapêutico.
Assim como o Existencialismo, a Gestalt-terapia enfatiza que o indivíduo está em constante construção e que a experiência presente é o ponto central da existência.
Conexões entre Existencialismo e Gestalt-terapia
1️⃣ O Aqui e Agora
Tanto o Existencialismo quanto a Gestalt-terapia enfatizam a importância de viver no presente. Como disse Perls:
“O passado está morto, o futuro é uma fantasia. O único momento real é o agora” (Perls, 1969).
2️⃣ A Responsabilidade Pelas Escolhas
A Gestalt-terapia, influenciada por Sartre, propõe que somos responsáveis por nossos atos e pelo significado que damos à vida.
“O homem está condenado a ser livre, porque, uma vez lançado ao mundo, ele é responsável por tudo o que faz” (Sartre, 1943).
3️⃣ Autenticidade e Contato
Para o Existencialismo, viver de forma autêntica significa estar em contato consigo mesmo e com o mundo. Esse conceito se reflete na prática gestáltica, que busca ampliar a awareness (consciência) do cliente sobre seus sentimentos, pensamentos e comportamentos.
4️⃣ A Angústia Como Parte da Vida
A Gestalt-terapia compreende que a angústia faz parte da existência e deve ser enfrentada, e não evitada. Como disse Heidegger:
“A angústia nos revela o nada e, com isso, nos conduz à autenticidade” (Heidegger, 1927).
Implicações para a Prática Clínica
A incorporação dos princípios existencialistas na Gestalt-terapia traz diversos benefícios para o processo terapêutico.
1. Relação Terapêutica Autêntica
Na Gestalt-terapia, o terapeuta não assume um papel de especialista distante, mas sim de um participante ativo na relação com o cliente. Ele se envolve de forma autêntica, proporcionando um espaço onde o cliente pode se expressar livremente.
2. Exploração do Sentido da Vida
A terapia ajuda o cliente a refletir sobre o significado que atribui à própria existência, auxiliando-o a construir uma vida mais alinhada com seus valores e desejos.
3. Enfrentamento da Angústia e da Morte
A Gestalt-terapia permite que o cliente enfrente a angústia existencial sem fugir dela, aceitando-a como parte do processo de crescimento.
4. Estímulo à Liberdade e à Responsabilidade
O terapeuta gestáltico convida o cliente a assumir o protagonismo de sua própria vida, identificando padrões de comportamento que o impedem de agir de forma autêntica.
5. Contato e Conexão com o Mundo
A Gestalt-terapia trabalha o conceito de contato, ajudando o cliente a perceber como ele se relaciona consigo mesmo, com os outros e com o ambiente.
Conclusão
A relação entre Gestalt-terapia e Existencialismo é profunda e transformadora. Enquanto o Existencialismo fornece uma base filosófica para compreender a existência humana, a Gestalt-terapia aplica esses conceitos na prática clínica, ajudando os clientes a assumirem a responsabilidade por suas vidas, enfrentarem suas angústias e viverem com autenticidade.
Essa abordagem convida os indivíduos a se tornarem conscientes de si mesmos, de suas escolhas e do impacto de suas ações no mundo, proporcionando um processo terapêutico mais profundo e significativo.
E você?
Como percebe a influência do Existencialismo na prática da Gestalt-terapia? Você já experimentou ou aplicou esses conceitos na clínica? Deixe seu comentário e compartilhe sua opinião! 😊
Referências
- Heidegger, M. (1927). Ser e Tempo.
- Sartre, J.-P. (1943). O Ser e o Nada.
- Kierkegaard, S. (1844). O Conceito de Angústia.
- Jaspers, K. (1932). Filosofia.
- Perls, F. (1969). Gestalt Therapy Verbatim.