MotoGP em Goiânia: entre o movimento da cidade e a liberdade de ficar em casa
A chegada de um grande evento como o MotoGP a Goiânia costuma mobilizar a cidade inteira. O som dos motores, o fluxo intenso de pessoas, a economia aquecida, os encontros sociais — tudo isso cria um clima coletivo de entusiasmo. É, sem dúvida, um momento importante para o desenvolvimento urbano, turístico e econômico. Mas, no meio desse movimento, existe uma dimensão silenciosa que muitas vezes passa despercebida: o direito de não participar.
Este texto é um convite para ampliar o olhar. Não apenas para quem acelera, mas também para quem escolhe desacelerar.
A cidade que se movimenta: impacto coletivo e desenvolvimento
Grandes eventos esportivos como o MotoGP têm um papel relevante na dinâmica das cidades. Do ponto de vista econômico, eles impulsionam setores como hotelaria, gastronomia, transporte e comércio local. Estudos sobre economia do turismo apontam que eventos dessa magnitude podem gerar aumento significativo no PIB local e na circulação de renda (Getz, 2008; Fourie & Santana-Gallego, 2011).
Além disso, há um ganho simbólico: a cidade passa a ocupar um lugar de destaque no cenário nacional e internacional. Goiânia se torna palco, vitrine, experiência.
Do ponto de vista psicológico, eventos coletivos também promovem senso de pertencimento. A ideia de “estar junto”, de viver algo em comum, fortalece vínculos sociais — algo que autores como Émile Durkheim já apontavam ao falar sobre a função social dos rituais coletivos.
Mas é justamente aqui que precisamos fazer um deslocamento importante.
Nem todo mundo precisa estar no mesmo ritmo
Em uma cultura que valoriza a participação constante, o movimento, o “estar por dentro”, pode parecer estranho — ou até inadequado — escolher ficar em casa enquanto a cidade vibra.
Mas do ponto de vista psicológico, essa escolha não só é legítima, como pode ser profundamente saudável.
A psicologia contemporânea, especialmente dentro das abordagens fenomenológicas e existenciais, nos lembra que a experiência humana não é padronizável. Cada sujeito se relaciona com o mundo a partir do seu próprio campo de significados (Lewin, 1936; Merleau-Ponty, 1945). O que para alguns é excitação e prazer, para outros pode ser sobrecarga sensorial, cansaço ou simplesmente desinteresse.
E tudo isso é válido.
O direito ao recolhimento: saúde mental também se faz no silêncio
Vivemos em uma era marcada pela hiperestimulação. Sons, telas, informações, eventos — há uma constante convocação para fora. Nesse contexto, o espaço de recolhimento se torna cada vez mais necessário.
Pesquisas na área de saúde mental mostram que momentos de descanso, introspecção e redução de estímulos estão associados a:
- diminuição dos níveis de estresse e cortisol (McEwen, 2007)
- melhora na regulação emocional
- aumento da capacidade de atenção e clareza mental (Kaplan & Kaplan, 1989)
- fortalecimento da autonomia e do senso de si
Ficar em casa, portanto, não é “perder o evento”. Pode ser, na verdade, ganhar presença.
É poder sentar, descansar, conversar com quem está próximo, estar com os filhos, ler um livro, ou simplesmente não fazer nada — algo que, paradoxalmente, tem se tornado raro.
Entre o barulho externo e o mundo interno
Dentro da Gestalt-terapia, especialmente a partir de autores como Violet Oaklander, aprendemos que o sujeito saudável é aquele que consegue entrar e sair do contato com o ambiente de forma flexível. Ou seja, participar quando faz sentido, mas também se retirar quando necessário.
Esse movimento — contato e retração — é fundamental para o equilíbrio psicológico.
Quando uma pessoa se sente obrigada a estar em todos os lugares, em todos os eventos, há uma ruptura nesse ciclo natural. Surge a ansiedade, o cansaço, a sensação de não dar conta. Por outro lado, quando ela consegue respeitar seu próprio ritmo, há maior integração e bem-estar.
Ficar em casa, nesse contexto, não é isolamento. É autorregulação.
Respeitar escolhas diferentes é também cuidar da cidade
Uma cidade saudável não é apenas aquela que cresce economicamente, mas aquela que acolhe diferentes formas de viver.
Há quem vá para o MotoGP com entusiasmo. Há quem prefira evitar o trânsito, o barulho, a multidão. Há famílias que transformam o fim de semana em descanso. Há profissionais que precisam trabalhar. Há pessoas que simplesmente querem silêncio.
E tudo isso precisa coexistir.
Do ponto de vista da psicologia social, sociedades mais saudáveis são aquelas que permitem diversidade de comportamentos sem julgamento (Silvia Lane, 1984). O problema não está em ir ou não ir. Está na pressão social que muitas vezes invalida escolhas individuais.
A liberdade como critério de saúde
Talvez o ponto central aqui seja este: saúde mental também é poder escolher.
Escolher ir.
Escolher não ir.
Escolher participar.
Escolher descansar.
Quando essa escolha é feita com consciência — e não por imposição externa — há um ganho real de autonomia psicológica.
E isso vale para muito além do MotoGP.
Um convite ao equilíbrio
Goiânia ganha com eventos como o MotoGP. Isso é inegável. A cidade se movimenta, cresce, se projeta.
Mas ela também ganha quando seus moradores conseguem cuidar de si.
Quando entendem que nem todo movimento externo precisa ser acompanhado internamente.
Quando percebem que descanso não é ausência de vida — é parte essencial dela.
Quando aprendem que estar bem não depende de estar em todos os lugares.
Consideração final
Ressalto que uma vida saudável não se constrói apenas nos grandes momentos coletivos, mas também nos pequenos espaços de pausa, silêncio e presença.
Se você foi ao MotoGP, aproveite.
Se você ficou em casa, aproveite também.
Porque, no fundo, o mais importante não é onde você está —
é o quanto você está presente na escolha que fez.
Referências (base científica)
- Durkheim, É. (1912). As formas elementares da vida religiosa.
- Fourie, J., & Santana-Gallego, M. (2011). The impact of mega-events on tourist arrivals. Tourism Management.
- Getz, D. (2008). Event tourism: Definition, evolution, and research. Tourism Management.
- Kaplan, R., & Kaplan, S. (1989). The Experience of Nature: A Psychological Perspective.
- Lewin, K. (1936). Principles of Topological Psychology.
- McEwen, B. S. (2007). Physiology and neurobiology of stress and adaptation. Physiological Reviews.
- Merleau-Ponty, M. (1945). Fenomenologia da percepção.
- Oaklander, V. (1988). Windows to Our Children.
- Lane, S. T. M. (1984). Psicologia social: o homem em movimento.