LEGO, família e conversação

  • post publicado em 07/01/26 às 15:21 PM
  • Tempo estimado de leitura: 4 minutos

 

Instituto Suassuna

LEGO, família e conversação: o que a ciência mostra sobre brincar que desenvolve

Durante muito tempo, o brincar foi visto apenas como um “intervalo” entre atividades sérias. Hoje, a psicologia do desenvolvimento, a neuropsicologia e as neurociências já não sustentam essa ideia. Brincar é uma das formas mais complexas de funcionamento psicológico da infância. E, dentro desse universo, o LEGO ocupa um lugar privilegiado.

Não por ser apenas um brinquedo famoso, mas porque ele mobiliza, de maneira integrada, memória operacional, planejamento, autorregulação, linguagem e interação social. Este texto tem como objetivo explicar, com base científica e clínica, por que o LEGO é um recurso tão potente — especialmente quando o foco é desenvolvimento cognitivo e conversação.

O que é memória operacional e por que ela importa tanto?

A memória operacional (ou working memory) é a capacidade de manter informações ativas na mente enquanto realizamos uma ação. Ela não serve apenas para “guardar dados”, mas para pensar em tempo real.

Na infância, a memória operacional está diretamente relacionada a:

  • aprendizagem escolar
  • compreensão de instruções
  • resolução de problemas
  • organização do pensamento
  • autorregulação emocional
  • desenvolvimento da linguagem

Quando uma criança apresenta dificuldades nessa função, costumamos observar frases como:

  • “Ele não termina o que começa”
  • “Se perde no meio da tarefa”
  • “Esquece o que acabou de ouvir”
  • “Tem dificuldade de explicar o que fez”

E é exatamente aqui que o LEGO entra como um recurso valioso.

Como o LEGO ativa a memória operacional na prática

Ao brincar com LEGO, a criança é constantemente convocada a pensar enquanto age. Diferente de brinquedos passivos ou repetitivos, o LEGO exige processamento ativo.

Durante a construção, a criança precisa:

  • manter na mente uma sequência de ações
  • lembrar onde cada peça foi colocada
  • antecipar o próximo passo
  • ajustar o plano diante de erros
  • integrar informação visual, espacial e motora

Isso significa que, sem perceber, ela está exercitando as mesmas funções executivas exigidas em atividades escolares, mas em um contexto lúdico, seguro e motivador.

Do ponto de vista neuropsicológico, esse tipo de atividade estimula circuitos fronto-parietais, especialmente relacionados ao planejamento e à memória operacional visuoespacial.

Importante: não é a quantidade de peças que faz diferença, mas a qualidade do desafio cognitivo.

LEGO e linguagem: por que ele não “ensina a falar”, mas favorece a conversação

Aqui é fundamental fazer uma distinção clara.

O LEGO não é um brinquedo linguístico direto, como jogos de perguntas, cartas ou histórias prontas. Porém, ele cria condições ideais para que a linguagem emerja, principalmente a conversação.

Isso acontece porque o LEGO:

  • cria problemas que precisam ser comunicados
  • exige negociação quando há mais de uma pessoa brincando
  • favorece explicações espontâneas
  • convida à narrativa (“o que você está construindo?”)

Quando a criança brinca sozinha, a linguagem pode aparecer ou não.
Quando a criança brinca com alguém, a conversação tende a surgir naturalmente.

Exemplos comuns durante a brincadeira:

  • “Essa peça não encaixa”
  • “Agora vai cair”
  • “Me ajuda aqui”
  • “Vamos fazer diferente”
  • “Essa é a casa, aqui é a porta”

Essas falas são ouro do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem, porque envolvem:

  • intenção comunicativa
  • organização do pensamento
  • uso funcional da linguagem
  • adaptação ao outro

O papel do adulto: brincar junto não é atrapalhar

Um erro comum é pensar que o adulto “estraga” a brincadeira quando participa. A ciência mostra exatamente o contrário: a mediação sensível amplia o potencial do brincar.

Algumas perguntas simples durante o LEGO podem ampliar memória e linguagem ao mesmo tempo:

  • “O que você está tentando fazer agora?”
  • “Como você pensou nisso?”
  • “O que vem depois?”
  • “Se isso fosse uma história, o que estaria acontecendo?”

Essas perguntas não são para testar, corrigir ou conduzir. São convites à organização interna da experiência.

Na clínica psicológica e em contextos educativos, o LEGO é amplamente utilizado justamente porque:

  • reduz a ansiedade da interação direta
  • facilita o vínculo
  • permite observar pensamento, linguagem e emoção ao mesmo tempo

LEGO, desenvolvimento emocional e tolerância à frustração

Outro aspecto frequentemente ignorado é o impacto emocional do LEGO.

Durante a brincadeira, a criança:

  • erra
  • desmonta
  • tenta de novo
  • precisa esperar
  • lida com limites físicos da construção

Tudo isso acontece em um ambiente seguro, o que favorece:

  • tolerância à frustração
  • persistência
  • flexibilidade cognitiva
  • autorregulação emocional

Essas habilidades são fundamentais não só para a infância, mas para a vida adulta.

O que pais costumam observar quando o LEGO é usado de forma consistente

Quando o LEGO passa a fazer parte da rotina, muitos pais relatam mudanças como:

  • maior capacidade de explicar o que a criança fez
  • mais iniciativa comunicativa durante a brincadeira
  • aumento do tempo de atenção
  • mais paciência diante de desafios
  • melhora na organização do pensamento

Esses ganhos não vêm de uma única sessão, mas da repetição com sentido, sem pressa e sem excesso de direcionamento.

Brincar também é uma forma de escuta

No projeto Falar para seu Filho Ouvir, partimos de um princípio simples, mas profundo:
👉 crianças falam melhor quando se sentem escutadas, não quando são pressionadas a falar certo.

O LEGO, quando usado como espaço de encontro, se torna um mediador poderoso dessa escuta. Ele tira o foco do “falar sobre” e coloca o foco no fazer junto, que muitas vezes abre portas para conversas que não surgiriam de outra forma.

Para quem este conteúdo é especialmente importante?

  • pais que querem estimular desenvolvimento sem excesso de telas
  • famílias preocupadas com atenção, linguagem e organização do pensamento
  • educadores e psicólogos que buscam recursos coerentes com a ciência
  • adultos que desejam se relacionar melhor com as crianças, sem fórmulas prontas

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Brincar não é perda de tempo.
Conversar não é apenas falar.
Cuidar do desenvolvimento é, antes de tudo, estar presente de verdade.

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Danilo Suassuna
Danilo Suassuna

Dr. Danilo Suassuna Martins Costa CRP 09/3697 CEO do Instituto suassuna, membro fundador e professor do Instituto Suassuna ; Psicoterapeuta há quase 20 anos, é psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás(PUC-GO);

Especialista em Gestalt-terapia, Doutor e Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2008) possui graduação em Psicologia pela mesma instituição. Pós-Doutorando em Educação;

Autor dos livros:

  • Histórias da Gestalt-Terapia – Um Estudo Historiográfico;
  • Renadi - Rede de atenção a pessoa idosa;
  • Supervisão em Gestalt-Terapia; Teoria e Prática;
  • Supervisão em Gestalt-Terapia: O cuidado como figura;

Organizador do livro Supervisão em Gestaltt-Terapia, bem como autor de artigos na área da Psicologia; Professor na FacCidade.

Acesse o Lattes: http://lattes.cnpq.br/8022252527245527