
LEGO, família e conversação: o que a ciência mostra sobre brincar que desenvolve
Durante muito tempo, o brincar foi visto apenas como um “intervalo” entre atividades sérias. Hoje, a psicologia do desenvolvimento, a neuropsicologia e as neurociências já não sustentam essa ideia. Brincar é uma das formas mais complexas de funcionamento psicológico da infância. E, dentro desse universo, o LEGO ocupa um lugar privilegiado.
Não por ser apenas um brinquedo famoso, mas porque ele mobiliza, de maneira integrada, memória operacional, planejamento, autorregulação, linguagem e interação social. Este texto tem como objetivo explicar, com base científica e clínica, por que o LEGO é um recurso tão potente — especialmente quando o foco é desenvolvimento cognitivo e conversação.
O que é memória operacional e por que ela importa tanto?
A memória operacional (ou working memory) é a capacidade de manter informações ativas na mente enquanto realizamos uma ação. Ela não serve apenas para “guardar dados”, mas para pensar em tempo real.
Na infância, a memória operacional está diretamente relacionada a:
- aprendizagem escolar
- compreensão de instruções
- resolução de problemas
- organização do pensamento
- autorregulação emocional
- desenvolvimento da linguagem
Quando uma criança apresenta dificuldades nessa função, costumamos observar frases como:
- “Ele não termina o que começa”
- “Se perde no meio da tarefa”
- “Esquece o que acabou de ouvir”
- “Tem dificuldade de explicar o que fez”
E é exatamente aqui que o LEGO entra como um recurso valioso.
Como o LEGO ativa a memória operacional na prática
Ao brincar com LEGO, a criança é constantemente convocada a pensar enquanto age. Diferente de brinquedos passivos ou repetitivos, o LEGO exige processamento ativo.
Durante a construção, a criança precisa:
- manter na mente uma sequência de ações
- lembrar onde cada peça foi colocada
- antecipar o próximo passo
- ajustar o plano diante de erros
- integrar informação visual, espacial e motora
Isso significa que, sem perceber, ela está exercitando as mesmas funções executivas exigidas em atividades escolares, mas em um contexto lúdico, seguro e motivador.
Do ponto de vista neuropsicológico, esse tipo de atividade estimula circuitos fronto-parietais, especialmente relacionados ao planejamento e à memória operacional visuoespacial.
Importante: não é a quantidade de peças que faz diferença, mas a qualidade do desafio cognitivo.
LEGO e linguagem: por que ele não “ensina a falar”, mas favorece a conversação
Aqui é fundamental fazer uma distinção clara.
O LEGO não é um brinquedo linguístico direto, como jogos de perguntas, cartas ou histórias prontas. Porém, ele cria condições ideais para que a linguagem emerja, principalmente a conversação.
Isso acontece porque o LEGO:
- cria problemas que precisam ser comunicados
- exige negociação quando há mais de uma pessoa brincando
- favorece explicações espontâneas
- convida à narrativa (“o que você está construindo?”)
Quando a criança brinca sozinha, a linguagem pode aparecer ou não.
Quando a criança brinca com alguém, a conversação tende a surgir naturalmente.
Exemplos comuns durante a brincadeira:
- “Essa peça não encaixa”
- “Agora vai cair”
- “Me ajuda aqui”
- “Vamos fazer diferente”
- “Essa é a casa, aqui é a porta”
Essas falas são ouro do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem, porque envolvem:
- intenção comunicativa
- organização do pensamento
- uso funcional da linguagem
- adaptação ao outro
O papel do adulto: brincar junto não é atrapalhar
Um erro comum é pensar que o adulto “estraga” a brincadeira quando participa. A ciência mostra exatamente o contrário: a mediação sensível amplia o potencial do brincar.
Algumas perguntas simples durante o LEGO podem ampliar memória e linguagem ao mesmo tempo:
- “O que você está tentando fazer agora?”
- “Como você pensou nisso?”
- “O que vem depois?”
- “Se isso fosse uma história, o que estaria acontecendo?”
Essas perguntas não são para testar, corrigir ou conduzir. São convites à organização interna da experiência.
Na clínica psicológica e em contextos educativos, o LEGO é amplamente utilizado justamente porque:
- reduz a ansiedade da interação direta
- facilita o vínculo
- permite observar pensamento, linguagem e emoção ao mesmo tempo
LEGO, desenvolvimento emocional e tolerância à frustração
Outro aspecto frequentemente ignorado é o impacto emocional do LEGO.
Durante a brincadeira, a criança:
- erra
- desmonta
- tenta de novo
- precisa esperar
- lida com limites físicos da construção
Tudo isso acontece em um ambiente seguro, o que favorece:
- tolerância à frustração
- persistência
- flexibilidade cognitiva
- autorregulação emocional
Essas habilidades são fundamentais não só para a infância, mas para a vida adulta.
O que pais costumam observar quando o LEGO é usado de forma consistente
Quando o LEGO passa a fazer parte da rotina, muitos pais relatam mudanças como:
- maior capacidade de explicar o que a criança fez
- mais iniciativa comunicativa durante a brincadeira
- aumento do tempo de atenção
- mais paciência diante de desafios
- melhora na organização do pensamento
Esses ganhos não vêm de uma única sessão, mas da repetição com sentido, sem pressa e sem excesso de direcionamento.
Brincar também é uma forma de escuta
No projeto Falar para seu Filho Ouvir, partimos de um princípio simples, mas profundo:
👉 crianças falam melhor quando se sentem escutadas, não quando são pressionadas a falar certo.
O LEGO, quando usado como espaço de encontro, se torna um mediador poderoso dessa escuta. Ele tira o foco do “falar sobre” e coloca o foco no fazer junto, que muitas vezes abre portas para conversas que não surgiriam de outra forma.
Para quem este conteúdo é especialmente importante?
- pais que querem estimular desenvolvimento sem excesso de telas
- famílias preocupadas com atenção, linguagem e organização do pensamento
- educadores e psicólogos que buscam recursos coerentes com a ciência
- adultos que desejam se relacionar melhor com as crianças, sem fórmulas prontas
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Brincar não é perda de tempo.
Conversar não é apenas falar.
Cuidar do desenvolvimento é, antes de tudo, estar presente de verdade.



