Dr. Danilo Suassuna (2026)
A inteligência artificial já participa de uma das áreas mais sensíveis da saúde: o tratamento de pessoas que desejam ter filhos. No laboratório, sistemas analisam imagens de embriões. Na clínica, modelos são desenvolvidos para estimar resultados a partir de dados dos pacientes. Essas aplicações abrem possibilidades e exigem uma discussão cuidadosa sobre evidências, responsabilidade e comunicação.
Para quem está em tratamento, saber que uma tecnologia avançada participa do processo pode produzir confiança. Também pode despertar dúvidas sobre como as decisões são tomadas e sobre o espaço que suas próprias escolhas ocupam.
O psicólogo que atua em reprodução humana precisa acompanhar essa transformação. As tecnologias entram no tratamento e passam a fazer parte das expectativas, dos receios e das conversas entre pacientes e profissionais.
É nesse contexto que a inteligência artificial integra os quatro eixos do I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna.
O que a inteligência artificial faz no laboratório
Uma das aplicações estudadas é a análise de imagens do desenvolvimento embrionário. Sistemas de aprendizado de máquina são treinados com dados para identificar padrões e produzir classificações que podem apoiar o trabalho dos embriologistas.
Algumas ferramentas utilizam imagens obtidas por sistemas time-lapse, que registram o desenvolvimento dos embriões ao longo do tempo. A partir desses registros, algoritmos atribuem pontuações que procuram auxiliar a seleção para transferência.
Essa descrição precisa chegar ao paciente de forma compreensível. Uma pontuação representa a estimativa de um sistema para uma finalidade específica. Seu significado depende dos dados utilizados, do modo como a ferramenta foi validada e daquilo que ela efetivamente consegue avaliar.
Na comunicação clínica, expressões como “o melhor embrião” merecem contexto. É necessário explicar os critérios considerados e as incertezas que permanecem.
O que os estudos conseguem demonstrar
O entusiasmo com uma tecnologia precisa ser acompanhado da avaliação dos resultados que ela oferece.
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2024 na Nature Medicine, com 1.066 participantes, comparou a seleção de embriões por um algoritmo de aprendizado profundo com a avaliação morfológica realizada por embriologistas. As taxas de gravidez clínica foram de 46,5% no grupo do algoritmo e de 48,2% no grupo da avaliação convencional.
O estudo não conseguiu demonstrar a não inferioridade do algoritmo dentro da margem previamente estabelecida. Em termos práticos, os resultados não permitiram concluir, com o grau de segurança definido pelos pesquisadores, que aquela ferramenta preservava o desempenho da avaliação convencional dentro do limite considerado aceitável.
Esse resultado diz respeito à ferramenta, à população e às condições avaliadas. Seu alcance precisa ser respeitado, tanto para evitar promessas quanto para não generalizar uma conclusão para toda a inteligência artificial.
A presença de IA em um tratamento, por si só, não comprova aumento da chance de ter um filho. Cada aplicação precisa apresentar evidências compatíveis com o benefício anunciado.
Probabilidades também precisam ser escutadas
Uma estimativa de sucesso pode ocupar um lugar muito diferente para a equipe e para quem está tentando engravidar. O profissional trabalha com probabilidades. O paciente pode receber aquele número como uma previsão sobre sua própria vida.
Na escuta psicológica, importa investigar o significado atribuído à informação. Uma porcentagem pode alimentar esperança, provocar desânimo ou aumentar a pressão para continuar um tratamento. Essas possibilidades precisam ser compreendidas individualmente.
A responsabilidade da equipe inclui explicar a que o número se refere: gravidez clínica, nascimento com vida, resultado de uma transferência ou de um conjunto de tentativas. Também é necessário esclarecer os limites de aplicação daquela estimativa ao caso acompanhado.
O psicólogo pode ajudar a identificar dúvidas e interpretações que precisam voltar à conversa com os profissionais responsáveis. Esse trabalho favorece uma participação mais consciente nas decisões.
A responsabilidade continua com os profissionais
A Organização Mundial da Saúde orienta que o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial em saúde sejam conduzidos com a ética e os direitos humanos no centro. Seu documento sobre o tema destaca a necessidade de responsabilidade dos envolvidos e de atenção às pessoas e comunidades afetadas pelas tecnologias.
Na reprodução humana, essa orientação exige práticas concretas. O paciente precisa compreender a finalidade da ferramenta, a participação dos profissionais na decisão e as limitações relevantes para seu tratamento.
Também merece atenção a forma como dados íntimos são utilizados. Informações reprodutivas, imagens de embriões e históricos clínicos demandam proteção e critérios claros de acesso e uso.
A frase “foi o sistema que indicou” deixa uma parte fundamental da conversa sem resposta. Cabe à equipe explicar como aquela indicação foi avaliada, quais elementos clínicos foram considerados e quais alternativas estão disponíveis.
Uma recomendação tecnológica precisa ser integrada a uma decisão clínica responsável e discutida com quem vive suas consequências.
O lugar da psicologia nesse cenário
A atuação psicológica acompanha a experiência de receber informações, lidar com incertezas e fazer escolhas. Com a presença da IA, esse trabalho ganha novos elementos.
É relevante compreender quanto o paciente confia na tecnologia, o que espera dela e como reage quando uma recomendação contraria suas expectativas. Também cabe explorar pressões relacionadas ao custo, à urgência e à sensação de que é preciso utilizar todos os recursos disponíveis.
Essas questões podem ser abordadas sem induzir a pessoa a aceitar ou rejeitar uma ferramenta. O compromisso clínico está na elaboração da experiência e no respeito à autonomia.
As diretrizes da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a ESHRE, recomendam que o cuidado psicossocial faça parte da rotina dos serviços de fertilidade e acompanhe as necessidades dos pacientes ao longo do tratamento. Essa orientação oferece uma base importante para pensar também os desafios trazidos pelas novas tecnologias.
Para contribuir com as equipes, o psicólogo precisa conhecer o contexto científico em que essas decisões acontecem. Uma formação atualizada permite reconhecer promessas excessivas, formular questões pertinentes e compreender melhor aquilo que chega à escuta.
Uma conversa que precisa reunir diferentes áreas
A inteligência artificial aproxima embriologia, medicina, ciência de dados, ética e psicologia. Seu uso exige diálogo entre profissionais capazes de examinar tanto o desempenho das ferramentas quanto suas implicações para o cuidado.
É essa formação conectada à atuação que o Instituto Suassuna propõe. A Psicologia Atuante acompanha as transformações da saúde e prepara o profissional para participar delas com conhecimento, responsabilidade e presença.
O I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial, nascido da Pós-Graduação em Reprodução Humana Assistida do Instituto Suassuna, reúne os eixos genética, epigenética, inteligência artificial e relações humanas.
A programação inclui conferência magna, palestras e duas mesas-redondas com apresentação de pesquisas inéditas das alunas da pós-graduação, além do encerramento conduzido pela direção do Instituto.
Para quem trabalha ou deseja atuar nessa área, o encontro oferece uma oportunidade de aprofundar o conhecimento e dialogar sobre decisões que já fazem parte da reprodução humana.
Participe e amplie sua formação para os desafios atuais do cuidado reprodutivo.
Garantir minha vaga no I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial
Referências
ILLINGWORTH, P. J. et al. Deep learning versus manual morphology-based embryo selection in IVF: a randomized, double-blind noninferiority trial. Nature Medicine, v. 30, p. 3114–3120, 2024. Acessar artigo.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Ethics and governance of artificial intelligence for health. Geneva: WHO, 2021. Acessar publicação.
HUMAN FERTILISATION AND EMBRYOLOGY AUTHORITY. Artificial intelligence in fertility treatment. Scientific and Clinical Advances Advisory Committee, 2019. Acessar documento.
EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY. Routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction: a guide for fertility staff. 2015. Acessar diretriz.