
Nos dias de hoje, é comum encontrar na internet uma infinidade de “gurus da felicidade”, influenciadores e coaches que oferecem fórmulas mágicas para o sucesso, promessas de plenitude e, em alguns casos, até mesmo uma vida sem angústias. Essas figuras se apresentam como líderes capazes de resolver nossos dilemas mais profundos, e muitos acabam aderindo cegamente a suas orientações. Porém, o que motiva essa necessidade de delegar decisões e procurar respostas prontas na boca de influenciadores? E, mais importante, quais os riscos de entregar nossa liberdade e responsabilidade a figuras que, muitas vezes, não possuem a experiência e o conhecimento necessários para guiar vidas alheias?
Para entender essa dinâmica, podemos recorrer às reflexões do psicólogo social Erich Fromm. Em seu livro O Medo à Liberdade, Fromm argumenta que a liberdade, embora desejável, pode ser assustadora. Tomar decisões implica enfrentar a incerteza, a possibilidade de erros e a angústia que acompanha a responsabilidade. Quando uma pessoa escolhe seguir cegamente um influenciador ou um coach, ela, muitas vezes, está em busca de aliviar esse peso, transferindo a carga da decisão para outra pessoa. É como se, ao confiar no julgamento alheio, o indivíduo pudesse se livrar do desconforto de pensar e decidir por si mesmo.
Esse fenômeno, que Fromm chamou de “fuga da liberdade”, revela-se em situações onde as pessoas aceitam de bom grado as ideias e os conselhos de figuras de autoridade, sem questioná-los. Ao delegar a responsabilidade pela própria vida, o indivíduo experimenta uma falsa sensação de segurança. Essa “entrega” de poder, embora alivie a angústia da liberdade, limita a autonomia e impede o crescimento pessoal. O problema é que essa dependência pode ser perigosa, especialmente quando os líderes em questão estão mais interessados em lucro pessoal do que no bem-estar de seus seguidores.
Essa busca por figuras de autoridade que tragam respostas prontas não é algo novo. Ao longo da história, a sociedade sempre se voltou para líderes em busca de direção, sentido e estabilidade. Em tempos de crise, como guerras ou instabilidade social, essa tendência se intensifica: é como se o caos externo aumentasse a necessidade interna de uma figura que possa inspirar confiança e orientar o caminho. Na religião, figuras como Jesus, Buda e Maomé desempenharam esse papel ao oferecerem não apenas um conjunto de ensinamentos, mas também um modelo de vida e de virtude.
Durante períodos de guerra, líderes fortes e resolutos como Winston Churchill emergiram como símbolos de esperança e resistência. No movimento pelos direitos civis, Martin Luther King Jr. se tornou uma figura essencial ao encorajar a busca por justiça e igualdade. Esses líderes foram capazes de inspirar e guiar, não porque ofereciam soluções fáceis, mas porque representavam valores e ideais profundos, ancorados em uma visão de mundo sólida. Eles traziam uma narrativa para o caos e reforçavam o propósito coletivo, algo que ressoava em uma sociedade desorientada.
O fenômeno descrito por Fromm, de delegar a responsabilidade para líderes em momentos de incerteza, é uma manifestação do que a filósofa Hannah Arendt também observou em suas análises. Segundo Arendt, a busca por ordem e sentido pode levar as pessoas a abraçarem ideologias totalitárias e figuras autoritárias, principalmente quando as instituições e a coesão social se enfraquecem. Em um mundo fragmentado, líderes que oferecem uma narrativa clara e unificadora se tornam atraentes, pois prometem um refúgio do caos e da solidão. Arendt sugere que as estruturas psíquicas e sociais do ser humano buscam uma autoridade que possa sustentar suas angústias existenciais.
No entanto, há uma diferença fundamental entre líderes históricos que encarnaram valores e virtudes e os influenciadores modernos que vendem promessas de felicidade. Enquanto os primeiros inspiravam através de seu compromisso com ideais elevados, os segundos muitas vezes estão focados em monetizar a vulnerabilidade de seus seguidores. A popularidade dos coaches e gurus digitais é uma resposta moderna a uma necessidade humana antiga: o desejo de coesão e direção. Mas, ao invés de oferecer crescimento real, muitos desses influenciadores acabam incentivando a passividade e a dependência, reforçando uma mentalidade de “soluções fáceis” que pouco contribui para o desenvolvimento pessoal.
Em uma sociedade mais individualista e digitalizada, a busca por líderes e guias se expressa de maneiras diferentes, como vemos nos influenciadores de redes sociais. Com um discurso polido e uma estética atraente, esses novos líderes prometem uma vida ideal, capaz de preencher o vazio e a incerteza que muitos sentem. No entanto, ao entregar a decisão de suas vidas a essas figuras, as pessoas podem estar sacrificando a autonomia e a possibilidade de uma verdadeira realização pessoal. A liberdade, por mais desafiadora que seja, é essencial para o crescimento e para o autoconhecimento.
Assim, talvez o desafio contemporâneo esteja em aprender a lidar com a nossa própria liberdade e a suportar o peso das nossas escolhas, em vez de procurar atalhos que apenas reforçam a dependência. Em vez de buscar líderes que ofereçam respostas prontas, é preciso encontrar guias que incentivem a reflexão crítica e a responsabilidade pessoal. Afinal, o verdadeiro líder não é aquele que oferece uma rota sem obstáculos, mas sim aquele que inspira a capacidade de cada um de encontrar o próprio caminho.
Como um observador apaixonado pelo comportamento humano, trago para essa brilhante construção uma configuração baseada no mais fino da filosofia, a cultura popular, que nesse caso em questão me permite destacar a máxima: “cada cabeça a uma sentença”. A verdade é que isso nunca mudou e que de certa forma sempre buscamos encontrar em alguma liderança um caminho, desde sempre.
É por isso que eu reverencio tanto a sabedoria popular, por toda a sua simplicidade, objetividade e principalmente, por sua precisão. Nessa sabedoria encontramos também as configurações: “você não é todo mundo”, “papagaio que acompanha joão de barro vira ajudante de pedreiro”, “passarinho que acompanha morcego acorda de cabeça para baixo” e uma que não poderei completar “passarinho que come pedra….”. Digo isso pois nada mudou, além da quantidade de falsas opções, esse é o verdadeiro problema.
O comportamento humano é a base do meu trabalho, pois é nele que estão baseados todos os espaços que os planejamentos estratégicos de marketing buscam preencher para gerar resultados sustentáveis em todos os níveis. Nos tornamos, em geral, em pessoas menos atentas, desinteressadas e com um falso senso de pertencimento coletivo, pois os algoritmos reafirmam nosso “feeling”, nos mostrando cada vez mais de nós mesmos.
Isso nos esgota e nos faz buscar essas pseudo opções que estão brilhantemente configuradas acima no texto.
Resgate e reconexão são os principais caminhos para essa retomada da autoridade de nós mesmos. Resgate aos valores inerentes à nossa existência enquanto seres humanos e reconexão com a realidade de ambiente onde vivenciamos nossas experiências e baseamos a origem dos nossos objetivos e sonhos, que terão de ser construídos.
Conhecimento influencia comportamento, que coletivizado constrói cultura, cultura essa que seja qual for sua base proporciona o maior privilégio de todos na minha opinião. O convívio!
Em tudo, o privilégio é de convívio e para conviver é necessário uma elemento chave que para mim é capaz de recodificar positivamente toda essa configuração que o texto apresenta, esse elemento é a coerência.
Para que tenhamos o recurso da coerência ao nosso favor nesse desafio do liderar-se é necessário que estejamos reconectados em convívio com o nosso ambiente de realidade, fortalecidos nos valores que nos forjam e com o olhar orientado ao que efetivamente nos move.
Deixo aqui uma reflexão final: “quanto mais coerência você tem de menos tolerância você precisa por parte do seu grupo de convívio e de você para com você mesmo”. Pense se está movido por coerência para com o seu meio ou se está usando do recurso de tolerância. Isso fará toda a diferença na plenitude de ser você, pois para mim nós somos o que somos no outro.
Danilo Suassuna
Ricardo Reuters