Dr. Danilo Suassuna (2026)


Um resultado genético pode mudar o planejamento de um tratamento e o modo como uma pessoa imagina seu futuro. Na reprodução humana assistida, informações sobre cromossomos, condições hereditárias e embriões entram em uma história que já tem desejos, expectativas e decisões difíceis.

Quem recebe essas informações precisa compreender seu significado, seus limites e as possibilidades que se abrem a partir delas. Também precisa de espaço para elaborar o que sente. Uma explicação tecnicamente correta pode deixar dúvidas que o paciente ainda não consegue formular diante da equipe.

Para o psicólogo que atua nesse campo, conhecer as principais discussões da genética reprodutiva amplia a capacidade de escuta e de diálogo com outros profissionais. Esse conhecimento ajuda a acompanhar decisões que atravessam o corpo, os vínculos familiares e o projeto de ter filhos.

É essa aproximação entre ciência e cuidado que orienta o eixo Genética do I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna.

O que a genética permite investigar

Entre os recursos utilizados na reprodução assistida estão os testes genéticos pré-implantacionais, realizados em células retiradas de embriões produzidos por fertilização in vitro. Existem modalidades diferentes, com objetivos específicos.

O PGT-M investiga determinadas condições monogênicas, relacionadas a alterações em um gene, quando existe um risco genético conhecido. O PGT-SR é utilizado na investigação de desequilíbrios associados a rearranjos estruturais dos cromossomos. A indicação depende da história clínica e genética de cada caso.

Já o PGT-A avalia alterações no número de cromossomos. Seu uso exige uma discussão cuidadosa sobre benefícios, limitações e características de cada paciente. Em parecer publicado em 2024, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, a ASRM, afirmou que o benefício de utilizar esse teste rotineiramente em todas as pessoas submetidas à fertilização in vitro ainda não foi demonstrado.

Essas diferenças precisam aparecer na comunicação com quem está em tratamento. A expressão “teste genético” pode transmitir uma ideia de investigação completa, quando cada exame responde a perguntas delimitadas.

Quanto mais uma tecnologia participa de uma decisão, mais necessário se torna explicar o que ela consegue responder.

A distância entre uma informação e a expectativa de certeza

Quem procura um tratamento reprodutivo pode desejar uma segurança que os procedimentos disponíveis não conseguem oferecer integralmente. Depois de meses ou anos de tentativas, cada novo exame pode ser recebido como uma oportunidade de finalmente eliminar a incerteza.

Por isso, o aconselhamento sobre testes genéticos precisa abordar suas limitações e a possibilidade de resultados que exijam novas discussões. No caso do PGT-M, a ASRM recomenda aconselhamento genético e esclarecimento sobre alternativas, limitações técnicas e possibilidades de confirmação durante a gestação. A realização do teste deve ser uma escolha informada e opcional.

Há uma diferença relevante entre a equipe ter explicado um procedimento e o paciente ter conseguido compreender o que aquela explicação significa para sua vida.

Na escuta psicológica, vale acompanhar como a pessoa recebeu a informação, quais expectativas construiu e o que acredita que acontecerá depois do resultado. Esse trabalho pode ajudar a identificar dúvidas que precisam retornar à equipe responsável.

Hereditariedade, culpa e histórias familiares

A descoberta de um risco hereditário também pode ganhar significados pessoais. Uma pessoa pode interpretar a possibilidade de transmitir uma condição genética como responsabilidade por um sofrimento futuro. Outra pode retomar lembranças de adoecimento na família e passar a enxergar seu projeto de parentalidade a partir dessas experiências.

Esses sentidos precisam ser investigados na singularidade de cada atendimento. Não cabe presumir que todos reagirão com culpa, medo ou rejeição. Há quem experimente alívio ao encontrar uma explicação; há quem precise de tempo para reorganizar o que imaginava.

A escuta clínica permite reconhecer essas diferenças sem transformar uma reação possível em roteiro obrigatório de sofrimento.

Para o psicólogo, importa compreender como aquela informação se relaciona com a história da pessoa, com seus vínculos e com as condições concretas em que ela está decidindo. O custo do tratamento, o apoio disponível, as crenças e os limites pessoais também entram nessa conversa.

O lugar do psicólogo nas decisões reprodutivas

O acompanhamento psicológico pode oferecer espaço para elaborar expectativas, reconhecer pressões e conversar sobre divergências. Quando existe um casal, os dois podem precisar de tempos diferentes para compreender uma informação e se posicionar diante dela.

A atuação exige respeito à autonomia. O profissional precisa sustentar uma escuta que permita à pessoa reconhecer seus próprios valores, inclusive quando eles diferem dos valores de quem a atende.

As diretrizes da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a ESHRE, orientam a integração do cuidado psicossocial à rotina dos serviços de fertilidade. As necessidades dos pacientes devem ser reconhecidas ao longo das diferentes etapas do tratamento, com participação da equipe.

Na prática, isso inclui acolher o impacto de um resultado, favorecer a comunicação e identificar a necessidade de acompanhamento especializado. Dúvidas sobre indicação de exames, interpretação genética e prognóstico precisam ser discutidas com os profissionais responsáveis por essas áreas.

A articulação entre profissionais dá consistência ao cuidado. O psicólogo precisa conhecer o contexto em que atua e contribuir a partir de sua competência clínica.

Uma formação que acompanha as decisões do presente

A genética reprodutiva coloca temas importantes na formação de quem trabalha com reprodução humana: comunicação de risco, consentimento informado, autonomia, expectativas sobre os filhos e limites das tecnologias.

Estudar esses temas permite uma participação mais qualificada nas equipes e uma escuta mais atenta ao que acontece com as pessoas durante o tratamento.

Essa é a direção da Psicologia Atuante, marca do Instituto Suassuna: uma formação comprometida com a presença do psicólogo nos contextos em que o cuidado precisa acontecer. Na reprodução humana, essa presença acompanha o planejamento, as tentativas, os resultados e as mudanças de caminho.

Venha aprofundar essa discussão no nosso encontro

O I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial nasce da Pós-Graduação em Reprodução Humana Assistida do Instituto Suassuna e aproxima quatro eixos fundamentais para a atuação contemporânea: genética, epigenética, inteligência artificial e relações humanas.

A programação reúne conferência magna, palestras e duas mesas-redondas com apresentação de pesquisas inéditas das alunas da pós-graduação, além do encerramento conduzido pela direção do Instituto.

O encontro é um convite para ampliar o conhecimento científico, dialogar com outras áreas e construir uma atuação atenta às pessoas que vivem o processo reprodutivo.

Conheça a programação e participe dessa conversa.

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Referências

AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. The use of preimplantation genetic testing for aneuploidy: a committee opinion. Fertility and Sterility, v. 122, p. 421–434, 2024. Acessar publicação.

AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. Indications and management of preimplantation genetic testing for monogenic conditions: a committee opinion. 2023. Acessar publicação.

EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY. Routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction: a guide for fertility staff. 2015. Acessar diretriz.

⚠️ Nota editorial: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional, produzido por profissionais de Psicologia credenciados. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado. Em caso de sofrimento psíquico, procure um psicólogo ou serviço de saúde mental.