O influenciador Felca voltou ao YouTube após meses afastado das redes sociais e compartilhou um relato pessoal sobre bullying, isolamento e sofrimento em situações sociais. No vídeo publicado em 20 de outubro de 2026, ele afirmou ter recebido o diagnóstico de fobia social, também chamada de transtorno de ansiedade social. Contou que sofreu agressões e humilhações na escola e que, em alguns momentos, recorreu ao álcool para enfrentar compromissos e interações profissionais. 

Felca também anunciou um desafio pessoal para voltar a aceitar convites e participar de situações sociais. Disse que pretende compartilhar parte dessa experiência com os seguidores e realizar palestras gratuitas em escolas sobre bullying. Seu relato é individual e não permite que o público faça avaliações ou diagnósticos sobre sua saúde. Ainda assim, trouxe à tona questões importantes para muitas pessoas: o medo de ser julgado, o isolamento e as marcas que a violência entre colegas pode deixar. 

Fobia social é mais do que timidez

Sentir vergonha ao conhecer alguém, ficar nervoso antes de uma apresentação ou preferir ambientes mais tranquilos não significa, por si só, ter um transtorno. A ansiedade social merece atenção quando o medo de ser observado, julgado ou rejeitado se torna persistente, provoca sofrimento intenso e começa a interferir na vida cotidiana.

A pessoa pode sentir medo de conversar, participar de reuniões, fazer apresentações, conhecer pessoas ou realizar atividades comuns diante dos outros. Podem ocorrer sintomas físicos, como palpitação, tremor, sudorese e náusea, além de preocupação antecipada e evitação de situações temidas. Algumas pessoas evitam esses contextos; outras conseguem enfrentá-los, mas com grande desconforto. O diagnóstico depende de avaliação profissional, considerando a duração, a intensidade e o impacto dos sintomas na vida da pessoa. 

Por isso, dizer a alguém “é só timidez” pode diminuir um sofrimento que merece ser escutado. Também é importante evitar o caminho oposto: não se deve diagnosticar uma pessoa com base em um vídeo, em um comportamento isolado ou em um relato público.

Bullying pode afetar a saúde mental

No vídeo, Felca relacionou seu sofrimento a situações de violência e humilhação vividas na escola. Essa relação precisa ser compreendida com cuidado: o bullying pode ter consequências para a saúde mental, mas não determina, por si só, que alguém desenvolverá um transtorno.

Revisões científicas encontraram associações entre sofrer bullying na infância e na adolescência e apresentar problemas de saúde mental, incluindo ansiedade. Estudos também investigam a relação entre ansiedade social e vitimização por bullying. Essas pesquisas contribuem para entendermos a dimensão do problema, mas não explicam a história de cada indivíduo nem substituem uma avaliação clínica. 

A violência repetida pode afetar a autoestima, a sensação de segurança e a confiança nas relações. Quando crianças e adolescentes não encontram adultos dispostos a escutar e intervir, podem sentir que precisam lidar sozinhos com a situação. A resposta ao bullying exige participação da escola, da família e da rede de proteção. A Organização Pan-Americana da Saúde recomenda ações articuladas para prevenir e enfrentar o bullying e o cyberbullying. 

Quando o álcool se torna uma tentativa de enfrentar o medo

Outro ponto do relato foi o uso de álcool para conseguir sair de casa e participar de compromissos. Felca disse que passou a depender da bebida nessas situações e contou que sofreu um acidente após beber antes de uma gravação. 

Esse relato pode abrir uma conversa sobre as estratégias que algumas pessoas encontram para suportar a ansiedade. Usar álcool para enfrentar situações sociais pode trazer riscos e criar novas dificuldades. O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos aponta que o transtorno de ansiedade social pode coexistir com uso problemático de álcool e outras substâncias. 

Quando alguém percebe que precisa beber para conversar, sair de casa ou trabalhar, é importante procurar apoio profissional. A escuta deve ser feita sem julgamento, para compreender o sofrimento e avaliar formas mais seguras de cuidado.

Enfrentar situações sociais exige cuidado e respeito ao próprio ritmo

O desafio anunciado por Felca é uma iniciativa pessoal. Para outras pessoas, tentar enfrentar de uma só vez situações que provocam muito medo pode aumentar o sofrimento. O acompanhamento psicológico pode ajudar a entender o que está acontecendo e construir, com a pessoa, formas de lidar com as situações que ela vem evitando.

Diretrizes clínicas recomendam psicoterapia para o transtorno de ansiedade social. Entre as possibilidades está a terapia cognitivo-comportamental desenvolvida especificamente para essa condição. A escolha do cuidado depende da avaliação profissional, da história e das necessidades de cada pessoa. Em algumas situações, o plano pode incluir também avaliação médica. 

O progresso não precisa ser uma grande virada nem uma prova pública de coragem. Pode começar com uma conversa, com o pedido de ajuda ou com a retomada gradual de uma atividade. Cada processo tem seu ritmo e precisa considerar as condições de vida e os limites de quem está passando por ele.

Como familiares e escolas podem acolher

Mudanças de comportamento, afastamento dos colegas, resistência em ir à escola ou sofrimento diante de situações sociais são sinais que merecem atenção. Eles não confirmam, sozinhos, que há bullying ou um transtorno, mas podem ser um convite para conversar e investigar com cuidado.

Acolher significa escutar sem minimizar a experiência. Frases como “isso é brincadeira” ou “você precisa aprender a se defender” podem fazer a criança ou o adolescente se sentir ainda mais sozinho. Uma conversa pode começar de forma simples: “Como você tem se sentido na escola?” ou “Tem alguma situação que está deixando você desconfortável?”. A escola, por sua vez, deve apurar os relatos, interromper as agressões e proteger quem está sendo alvo da violência.

Buscar ajuda também é uma forma de cuidado

A fala pública de Felca pode ajudar a reduzir o silêncio em torno da ansiedade social e do bullying. Mas o cuidado precisa ir além da repercussão de um vídeo: envolve acesso a profissionais, ambientes escolares seguros e disponibilidade para ouvir quem está sofrendo.

Se o medo de interagir está levando você a evitar atividades ou prejudicando seus estudos, trabalho ou relações, buscar ajuda psicológica pode ser um primeiro passo. Não é preciso esperar que o sofrimento se torne insuportável para conversar com um profissional.

O Todos Cuidados é um projeto do Instituto Suassuna voltado ao acolhimento e à ampliação do acesso ao cuidado psicológico. Se você está buscando atendimento para si ou para alguém próximo, conheça o projeto e informe-se sobre as possibilidades de atendimento disponíveis.

Texto elaborado por Dr. Danilo Suassuna

Referências

  • National Institute of Mental Health. Social Anxiety Disorder: What You Need to Know. 
  • Moore, S. E. et al. “Consequences of bullying victimization in childhood and adolescence: A systematic review and meta-analysis.” World Journal of Psychiatry, 2017, 7(1), 60–76. 
  • Chen, Y. et al. “Social anxiety and bullying victimization: A three-level meta-analysis of cross-sectional and longitudinal studies.” Child Abuse & Neglect, 2024, 157, 107052. 
  • NICE. Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment. Diretriz clínica CG159. 
  • Organização Pan-Americana da Saúde. Kit para prevenir bullying e cyberbullying entre crianças e adolescentes nas Américas. 
⚠️ Nota editorial: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional, produzido por profissionais de Psicologia credenciados. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado. Em caso de sofrimento psíquico, procure um psicólogo ou serviço de saúde mental.