Dr. Danilo Suassuna (2026)
Quem atravessa um tratamento para engravidar costuma receber orientações sobre alimentação, sono, atividade física e rotina. Junto dessas recomendações, chegam conselhos de familiares, relatos das redes sociais e cobranças sobre o próprio estado emocional. Aos poucos, a pessoa pode sentir que precisa administrar cada detalhe da vida para conseguir uma gestação.
A epigenética tem aparecido cada vez mais nessa conversa. Ela contribui para compreender como o funcionamento dos genes se relaciona com processos do organismo e com determinadas exposições ambientais. Também exige cuidado na comunicação: descobertas sobre mecanismos biológicos não autorizam afirmar que alguém deixou de engravidar porque sentiu medo, trabalhou demais ou não conseguiu controlar a ansiedade.
Para quem atua em reprodução humana, conhecer esse campo ajuda a acompanhar o avanço científico e a reconhecer os limites das explicações oferecidas aos pacientes.
Esse é um dos debates do I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna, que reúne genética, epigenética, inteligência artificial e relações humanas.
O que a epigenética estuda
A epigenética investiga modificações que participam da regulação da atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA. Entre os mecanismos estudados estão a metilação do DNA e modificações em proteínas chamadas histonas, em torno das quais o DNA se organiza.
Esses processos ajudam a explicar como células com praticamente o mesmo material genético desempenham funções diferentes. Também participam do desenvolvimento e podem sofrer alterações relacionadas a exposições ambientais e doenças. Fatores como tabagismo e alimentação estão entre os elementos investigados nesse campo.
Na reprodução humana, essa perspectiva amplia a investigação dos processos envolvidos na saúde reprodutiva. Permite estudar como a atividade dos genes é regulada em diferentes tecidos e condições, além de examinar possíveis relações com o funcionamento do endométrio e com doenças associadas à infertilidade.
A passagem de uma descoberta de laboratório para uma orientação clínica, porém, depende de pesquisa. Identificar uma alteração epigenética não significa, automaticamente, saber sua causa, suas consequências ou a melhor forma de intervir.
Endometriose: o que as pesquisas estão investigando
A endometriose é um dos campos em que a investigação epigenética vem produzindo conhecimento relevante. Pesquisas apoiadas pelo Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos investigam a participação de mecanismos genéticos, epigenéticos, inflamatórios e ambientais na doença.
Um estudo publicado em 2023 na revista Communications Biology identificou diferenças nos padrões de metilação do DNA do endométrio associadas a características da endometriose e às fases do ciclo menstrual. Os resultados contribuem para compreender a regulação biológica desse tecido e a diversidade de manifestações da doença.
É preciso preservar o alcance desses achados. Eles não demonstram que conflitos emocionais causam endometriose, nem permitem afirmar que uma mudança de pensamento possa reverter as alterações observadas.
Para a atuação psicológica, o conhecimento científico precisa caminhar junto da escuta da experiência concreta: conviver com dor, reorganizar atividades, comunicar limites, enfrentar dúvidas sobre a fertilidade e tomar decisões sobre o tratamento. Cada pessoa apresenta necessidades próprias, que precisam ser compreendidas ao longo do acompanhamento.
Estresse e fertilidade exigem uma conversa cuidadosa
A frase “relaxa que você engravida” ainda circula com facilidade. Para quem está tentando ter um filho, ela pode acrescentar uma tarefa difícil: sentir-se bem o suficiente para merecer um resultado positivo.
A pesquisa exige mais precisão.
Uma metanálise de Boivin, Griffiths e Venetis, publicada no BMJ, reuniu 14 estudos prospectivos, com 3.583 mulheres. Nesse conjunto de pesquisas, o sofrimento emocional medido antes do tratamento, por indicadores de ansiedade ou depressão, não apresentou associação significativa com o resultado de um ciclo de reprodução assistida.
Esse estudo não encerra todas as discussões sobre estresse e reprodução. Seu recorte, entretanto, ajuda a questionar a atribuição do insucesso de um tratamento ao estado emocional da paciente.
Também é necessário distinguir perguntas científicas diferentes. Investigar mecanismos biológicos relacionados ao estresse é uma tarefa. Demonstrar que determinada experiência emocional provocou infertilidade em uma pessoa é outra, que exige evidências específicas.
A ansiedade de quem está em tratamento merece cuidado, sem se tornar uma explicação automática para a dificuldade de engravidar.
Ambiente também envolve condições de vida
Na comunicação sobre saúde, a palavra “ambiente” costuma ser reduzida à rotina individual. A conversa se concentra no que a pessoa come, no horário em que dorme e na frequência com que se exercita.
No atendimento, é necessário conhecer também as condições em que essas escolhas acontecem. A jornada de trabalho, a renda, o deslocamento até a clínica, a divisão das responsabilidades e a disponibilidade de apoio participam da experiência de tratamento.
Uma orientação pode ser adequada e, ao mesmo tempo, difícil de colocar em prática. Reconhecer essa distância permite construir um cuidado possível, com metas que façam sentido para aquela realidade.
Essas condições devem ser consideradas por sua relevância clínica e social. Atribuir a cada uma delas um efeito epigenético específico exigiria evidências próprias. O cuidado já tem razões suficientes para olhar para a vida cotidiana, mesmo quando não há um marcador biológico que traduza toda a experiência.
O que esse conhecimento acrescenta à atuação do psicólogo
O psicólogo que acompanha pessoas em reprodução assistida precisa compreender os discursos científicos que chegam ao consultório. Termos como “epigenética”, “inflamação” e “qualidade dos óvulos” podem aparecer acompanhados de dúvidas, expectativas e interpretações que merecem atenção.
A escuta pode investigar como a pessoa compreendeu uma orientação, quais responsabilidades atribuiu a si mesma e que mudanças consegue sustentar. Também pode reconhecer quando uma explicação recebida aumentou a culpa ou criou uma expectativa de controle sobre o resultado.
As diretrizes da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a ESHRE, recomendam integrar o cuidado psicossocial à rotina dos serviços de fertilidade, considerando as necessidades dos pacientes nas diferentes etapas do tratamento.
Essa atuação envolve acolher o sofrimento, apoiar a comunicação, trabalhar expectativas e articular o cuidado com a equipe. A fundamentação científica também exige reconhecer que os estudos citados aqui não demonstram que a psicoterapia possa “reprogramar” a fertilidade ou garantir uma gestação.
O cuidado psicológico tem valor na vida de quem está tentando engravidar, qualquer que seja o resultado do tratamento.
Ciência e escuta no mesmo encontro
A epigenética amplia as perguntas sobre a relação entre organismo e ambiente. Para os profissionais da reprodução humana, acompanhar esse conhecimento exige capacidade de leitura crítica e atenção à maneira como a informação chega às pessoas.
Essa articulação faz parte da Psicologia Atuante do Instituto Suassuna: estudar com profundidade, dialogar com outras áreas e transformar conhecimento em uma prática responsável.
O I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial nasce da Pós-Graduação em Reprodução Humana Assistida do Instituto Suassuna e propõe esse espaço de formação e diálogo.
A programação reúne conferência magna, palestras e duas mesas-redondas com apresentação de pesquisas inéditas das alunas da pós-graduação, além do encerramento conduzido pela direção do Instituto. Os quatro eixos aproximam os avanços científicos das decisões e relações que atravessam o tratamento.
Participe do encontro e aprofunde sua compreensão sobre reprodução humana e cuidado psicossocial.
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Referências
BOIVIN, J.; GRIFFITHS, E.; VENETIS, C. A. Emotional distress in infertile women and failure of assisted reproductive technologies: meta-analysis of prospective psychosocial studies. BMJ, v. 342, d223, 2011. Acessar artigo.
Global endometrial DNA methylation analysis reveals insights into mQTL regulation and associated endometriosis disease risk and endometrial function. Communications Biology, 2023. Acessar artigo.
NATIONAL HUMAN GENOME RESEARCH INSTITUTE. Epigenomics Fact Sheet. 2020. Acessar publicação.
EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY. Routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction: a guide for fertility staff. 2015. Acessar diretriz.