Burnout nas empresas e o que a governança corporativa tem a ver com isso

  • post publicado em 07/01/26 às 15:19 PM
  • Tempo estimado de leitura: 5 minutos

 

Burnout nas empresas: por que ele continua crescendo — e o que a governança corporativa tem a ver com isso?

Mesmo após o período mais crítico da pandemia, os índices de esgotamento mental, afastamentos por transtornos psicológicos e queda de produtividade seguem aumentando. Isso levanta uma pergunta incômoda, porém necessária: por que o burnout não diminuiu quando a crise sanitária passou?

A resposta exige sair da lógica do “evento isolado” e olhar para como o trabalho está estruturado, gerido e governado.

Abaixo, organizamos as principais perguntas que gestores, líderes e conselhos precisam se fazer — com respostas baseadas em evidências.

Por que o burnout continua crescendo mesmo após o período mais crítico da pandemia?

Porque o burnout não é causado por uma crise pontual, mas por exposição prolongada a estressores organizacionais sem compensação adequada.

A pandemia:

  • Intensificou cargas de trabalho,
  • Acelerou a digitalização,
  • Normalizou jornadas extensas,
  • Fragilizou fronteiras entre vida pessoal e profissional.

O problema é que muitas organizações mantiveram esse ritmo como padrão, mesmo quando o contexto emergencial já havia passado.

Modelos contemporâneos de saúde ocupacional mostram que o burnout emerge quando há desequilíbrio crônico entre demandas do trabalho e recursos disponíveis — como autonomia, previsibilidade, apoio da liderança, justiça organizacional e reconhecimento. Quando esse desequilíbrio se mantém ao longo do tempo, o adoecimento deixa de ser exceção e passa a ser estrutural.

É correto dizer que o burnout é mais estrutural do que sazonal?

Sim, e essa distinção é fundamental.

O burnout é estrutural porque se desenvolve a partir de condições contínuas de trabalho:

  • Carga excessiva,
  • Falta de controle sobre o próprio tempo,
  • Ambiguidade de papéis,
  • Metas conflitantes,
  • Injustiça percebida,
  • Falta de reconhecimento,
  • Valores pessoais em conflito com valores organizacionais.

Momentos como dezembro atuam como gatilhos sazonais, mas não são a causa em si. Eles apenas expõem, de forma mais visível, um desgaste que já vinha sendo construído ao longo do ano — ou de vários anos.

Quais sinais de alerta gestores e lideranças precisam observar nas equipes?

Os sinais de burnout costumam aparecer em três grandes dimensões:

1. Exaustão emocional e cognitiva

  • Cansaço persistente,
  • Dificuldade de concentração,
  • Irritabilidade frequente,
  • Sensação de estar sempre “no limite”.

2. Distanciamento e cinismo

  • Falas despersonalizadas (“tanto faz”, “não é problema meu”),
  • Redução do engajamento,
  • Isolamento social,
  • Perda de sentido no trabalho.

3. Queda da eficácia percebida

  • Procrastinação incomum,
  • Erros simples e retrabalho,
  • Autocrítica excessiva,
  • Sensação constante de incompetência, mesmo em profissionais experientes.

Para a gestão, alguns indicadores indiretos merecem atenção:

  • Aumento de conflitos interpessoais,
  • Crescimento do presenteísmo (a pessoa comparece, mas rende pouco),
  • Afastamentos curtos e recorrentes,
  • Rotatividade acima do histórico da área.

Como a cultura da hiperconectividade contribui para o esgotamento mental?

A hiperconectividade fragiliza um dos principais fatores de proteção da saúde mental: o desligamento psicológico do trabalho.

Quando existe expectativa implícita ou explícita de resposta constante:

  • O cérebro permanece em estado de alerta,
  • A recuperação emocional é interrompida,
  • O conflito trabalho–família se intensifica,
  • A exaustão se torna cumulativa.

Não se trata apenas do uso de tecnologia, mas da cultura organizacional que associa disponibilidade permanente a comprometimento e desempenho. Sem regras claras e sustentadas pela liderança, o custo mental recai sempre sobre o trabalhador.

A pressão por metas no fim do ano poderia ser repensada sem comprometer resultados?

Sim — e, em muitos casos, isso protege os resultados no médio e longo prazo.

O problema não são as metas, mas:

  • Metas desconectadas da capacidade real das equipes,
  • Concentração excessiva de entregas em curtos períodos,
  • Falta de priorização clara,
  • Avaliação baseada apenas em volume, não em sustentabilidade.

Empresas que revisam seus ciclos de planejamento, distribuem entregas ao longo do ano e oferecem maior autonomia na execução tendem a reduzir erros, retrabalho, afastamentos e turnover — fatores que impactam diretamente o resultado financeiro.

Que erros mais comuns as empresas ainda cometem ao tratar saúde mental?

Alguns erros são recorrentes:

  • Tratar saúde mental como responsabilidade exclusiva do indivíduo.
  • Investir apenas em ações pontuais, sem rever processos e metas.
  • Confundir benefício (app, palestra) com estratégia organizacional.
  • Medicalizar o problema sem analisar os riscos psicossociais do trabalho.
  • Cobrar performance de pessoas já adoecidas, ampliando o presenteísmo.

Essas abordagens falham porque ignoram a dimensão organizacional do sofrimento.

Qual o impacto financeiro do burnout para as organizações?

O impacto ocorre em múltiplas frentes:

  • Redução de produtividade,
  • Aumento de erros e retrabalho,
  • Crescimento do absenteísmo e do presenteísmo,
  • Afastamentos por transtornos mentais,
  • Custos de rotatividade e perda de conhecimento.

Estudos internacionais estimam perdas globais na casa de trilhões de dólares por ano associadas a depressão, ansiedade e esgotamento relacionados ao trabalho. Para as empresas, o custo invisível — o colaborador que permanece trabalhando, mas com desempenho muito abaixo do potencial — costuma ser o mais alto.

O que diferencia empresas que conseguem reduzir afastamentos por transtornos mentais?

De forma consistente, essas empresas compartilham três características:

1. Gestão baseada em dados
Monitoram indicadores de saúde organizacional com a mesma seriedade que indicadores financeiros.

2. Intervenção estrutural
Atuam sobre carga de trabalho, prioridades, autonomia, clareza de papéis e qualidade da liderança — não apenas sobre o indivíduo adoecido.

3. Cultura de limites e recuperação
Valorizam pausas, férias, comunicação responsável e ritmos sustentáveis de trabalho.

Fechando a ideia: burnout, governança corporativa e responsabilidade organizacional

O burnout cresce quando as organizações operam em alta demanda crônica, baixa recuperação e pouca margem humana. Dezembro apenas evidencia esse modelo.

Por isso, falar de burnout hoje não é apenas falar de saúde mental — é falar de governança corporativa.

Empresas que tratam o tema com seriedade:

  • Integram saúde mental às decisões estratégicas,
  • Incluem riscos psicossociais na gestão de riscos,
  • Alinham metas, recursos e pessoas,
  • Reconhecem que a sustentabilidade humana é parte da sustentabilidade do negócio.

Burnout não é uma falha individual.
É, muitas vezes, falha de governança.

E organizações que compreendem isso não apenas cuidam melhor das pessoas performam melhor, por mais tempo, com menos custo oculto.

NR-1, governança e cuidado contínuo com as pessoas

Diante desse cenário, é importante lembrar que saúde mental no trabalho deixou de ser apenas uma boa prática e passou a integrar, de forma objetiva, o campo da gestão de riscos, da conformidade legal e da governança corporativa.

A NR-1, ao tratar do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), amplia o olhar das empresas para além dos riscos físicos e químicos e reforça a necessidade de mapear, monitorar e intervir também nos riscos psicossociais — como sobrecarga, pressão excessiva por metas, assédio organizacional, jornadas prolongadas e falta de previsibilidade. Ignorar esses fatores hoje não é apenas uma escolha gerencial: é um risco jurídico, financeiro e reputacional.

Nesse contexto, iniciativas estruturadas como o Todos Cuidados, do Instituto Suassuna, surgem como ferramentas estratégicas de apoio à NR-1 (https://saudeexecutiva.com/), à governança e à sustentabilidade organizacional. O programa vai além do atendimento individual e se propõe a:

  • apoiar empresas no cuidado contínuo com a saúde mental de seus colaboradores,
  • reduzir afastamentos e presenteísmo,
  • oferecer suporte psicológico acessível às equipes e às famílias,
  • contribuir para ambientes de trabalho mais saudáveis, produtivos e juridicamente mais seguros.

Cuidar da saúde mental no trabalho hoje não é um gesto isolado de bem-estar.
É decisão estratégica, é governança responsável e é compromisso com a perenidade do negócio.

Empresas que compreendem isso saem do discurso, entram na prática e constroem resultados sustentáveis — para as pessoas, para a organização e para a sociedade.

Eleve o cuidado na sua empresa com psicoterapia para os colaboradores. Conheça o Todos Cuidados https://institutosuassuna.com.br/todos-cuidados/ 

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Danilo Suassuna
Danilo Suassuna

Dr. Danilo Suassuna Martins Costa CRP 09/3697 CEO do Instituto suassuna, membro fundador e professor do Instituto Suassuna ; Psicoterapeuta há quase 20 anos, é psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás(PUC-GO);

Especialista em Gestalt-terapia, Doutor e Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2008) possui graduação em Psicologia pela mesma instituição. Pós-Doutorando em Educação;

Autor dos livros:

  • Histórias da Gestalt-Terapia – Um Estudo Historiográfico;
  • Renadi - Rede de atenção a pessoa idosa;
  • Supervisão em Gestalt-Terapia; Teoria e Prática;
  • Supervisão em Gestalt-Terapia: O cuidado como figura;

Organizador do livro Supervisão em Gestaltt-Terapia, bem como autor de artigos na área da Psicologia; Professor na FacCidade.

Acesse o Lattes: http://lattes.cnpq.br/8022252527245527