É marcante o estilo íntimo e efusivo com que o diretor e roteirista americano Sean Baker retrata a luta de pessoas socialmente marginalizadas pelos resquícios de sua dignidade. Nos longas Tangerine (Tangerine, 2015, Magnolia Pictures) e Projeto Flórida (The Florida Project, 2017, A24), Baker não poupa seus personagens do ridículo e do trágico enquanto tece também uma ou outra relação que evoca sutilmente o que há de mais honesto e vulnerável em seus protagonistas. Algo semelhante e ainda mais refinado acontece também em Anora (Anora, 2024, Neon).
A primeira metade do filme é uma balada sem fim. No ofício de dançarina exótica, Ani (como Anora prefere ser chamada) conhece Vanya (como prefere ser chamado Ivan Zakharov, filho de um riquíssimo oligarca russo). À medida que vão prolongando seus encontros e Ani conhece as inúmeras regalias de se viver no mundo de Vanya, ambos decidem se casar em Las Vegas na esperança de continuar a diversão e impedir os pais do menino de obrigarem-no a voltar à Rússia para trabalhar na empresa da família.
Baker já diz algo sobre seus personagens pela maneira como preferem ser chamados. Assumindo versões reduzidas e, de certa forma, infantis de seus próprios nomes, Anora e Ivan têm em comum o desejo de escapar da maturidade e das responsabilidades supostamente aprisionantes da vida adulta. Também se aproveitam dos recursos de outra pessoa para escapar de suas sinas indesejáveis: Vanya se usa do dinheiro dos pais; Ani, do dinheiro de Vanya.
Porém, se Vanya representa um mundo de prazer ilimitado sem nenhuma responsabilidade ou sacrifício pessoal, Anora é aquela que conhece o que é sacrificar o próprio corpo (e outras coisas mais) a troco de muito menos do que acha que merece. Ainda que seja habilidosa em agir como se gostasse da vida que leva, é com unhas e dentes que se entrega à possibilidade de ser esposa de um filhinho de papai, não questionando nem por um momento sobre o mundo (terrivelmente suspeito) em que está entrando e o mundo que está abandonando para ser cúmplice e beneficiária do estilo de vida desregrado de Vanya, que vende uma felicidade sem fim a preço de fábrica.
A segunda metade do filme acompanha a luta de Anora contra as ordens da família de Vanya de que o casamento realizado impulsivamente em Las Vegas seja anulado. Nesse momento do filme, Anora passa a dividir mais tempo de tela com Igor, um subordinado dos comparsas da família de Vanya que evidentemente não queria estar ali e que, assim como Anora, sabe o que é sujeitar-se às vontades e caprichos dos outros a troco de muito pouco. Igor testemunha com admiração silenciosa a luta épica de Anora para evitar a anulação do casamento, pois é o único que compreende a humilhação da garota e seu desejo irrefreável de resgatar o que pode de sua dignidade.
É interessante acompanhar a dinâmica hostil e conflituosa entre os dois. Por mais que Igor mostre-se em vários momentos solidário e até protetor com Anora, esta o despreza profundamente desde o momento em que Igor a imobilizou contra a sua vontade para impedi-la de agredir seu colega e a si mesmo e fugir com Vanya. Este momento de contenção física simboliza também uma contenção psicológica e existencial provavelmente tardia nas vidas de Vanya e Anora.
Se ambos representavam até então o ideal de uma vida sem a “castração simbólica” que situa o sujeito como um ser faltante e inscrito sob uma realidade limitante, Anora experimenta, sob a contenção e o olhar de Igor, aquilo que é característico da função paterna: a separação do vínculo de dependência materna e a inclusão em um mundo mais amplo que lhe exige a compreensão de si mesmo como sujeito autônomo. Em outras palavras: Igor é aquele que interrompe esse sonho de uma eterna infância, ao mesmo tempo em que também compreende intimamente Anora como pessoa e não a objetifica como a maioria o faz – inclusive ela mesma.
Com isso, Sean Baker reafirma o mote de seus outros filmes: quando caem por terra os esforços de escapar da maturidade e das limitações da realidade e viver a tão sonhada “boa vida”, tudo o que nos resta é o contato humano que reafirma a alteridade e o possível de cada um. Ainda que ao final de Anora este contato acabe sendo tão trágico e avassalador quanto sua luta para evitá-lo, é o único poderoso o bastante para lembrá-la que só se pode escapar de si mesma até certo ponto. Em algum momento, a festa tem que acabar.
Pedro Paulo Coelho (CRP 09/10277)
Psicólogo, Gestalt-terapeuta, especialista em atendimento com adolescentes e palestrante sobre saúde mental e autoconhecimento.
@pedropaulocoelhoo