Por Dra. Virgínia Suassuna — Psicóloga, pós-doutora em Casal e Família, gestalt-terapeuta e supervisora clínica.
É possível amar alguém profundamente e, aos poucos, perder de vista quem somos? A Psicologia nos ajuda a compreender como nossas relações podem ampliar nossa identidade, mas também como podemos começar a abrir mão de partes importantes de nós mesmos para preservar um vínculo.
Imagine uma mulher que, ao começar um relacionamento, costumava encontrar as amigas, fazer planos, estudar e dedicar tempo às atividades que lhe proporcionavam alegria.
Com o passar dos meses, ela começa a reorganizar toda a sua vida em função do companheiro.
Primeiro, deixa de frequentar alguns lugares. Depois, passa a evitar conversas que poderiam provocar discordâncias. Aos poucos, já não sabe dizer se realmente gosta de determinada atividade ou se aprendeu a gostar porque o parceiro gosta.
Quando alguém pergunta o que ela deseja para o futuro, sua resposta começa quase sempre com a mesma expressão:
“Nós queremos…”
Mas o que aconteceu com aquilo que ela queria?
Essa é uma pergunta importante.
Amar envolve compartilhar, negociar, transformar hábitos e construir uma história comum. Entretanto, precisamos olhar com atenção para o momento em que as mudanças deixam de representar escolhas compartilhadas e começam a significar o abandono constante de nossas próprias necessidades.
Afinal, até que ponto você continua sendo você dentro do seu relacionamento?
O amor transforma nossa identidade?
Sim. E isso não é necessariamente ruim.
Nossas relações participam da maneira como construímos a compreensão de quem somos. Ao conviver com outra pessoa, entramos em contato com novos interesses, experiências, valores e perspectivas.
Podemos descobrir habilidades que desconhecíamos, ampliar nossa compreensão do mundo e encontrar novas possibilidades de crescimento.
Na Psicologia, existem estudos que procuram compreender justamente essa influência dos relacionamentos sobre a identidade.
Os pesquisadores Erica Slotter, Wendi Gardner e Eli Finkel (2010), por exemplo, investigaram como o término de um relacionamento amoroso pode modificar a percepção que uma pessoa possui de si mesma.
Em três estudos, os autores observaram mudanças no autoconceito e uma diminuição da clareza sobre a própria identidade após a separação. Essa diminuição esteve associada a maior sofrimento emocional.
Esses resultados não significam que toda pessoa que termina um relacionamento perde sua identidade. Eles mostram, entretanto, como os vínculos afetivos podem participar da organização daquilo que pensamos sobre nós mesmos.
Quando duas pessoas compartilham uma história, constroem também referências comuns. Por isso, o rompimento pode exigir uma reorganização que vai além da ausência do companheiro.
Uma pessoa pode precisar redescobrir seus interesses, reorganizar sua rotina e reconstruir projetos que antes estavam relacionados à vida do casal.
Mas há outra questão igualmente importante: o que acontece quando essa dificuldade de reconhecer a própria identidade surge enquanto o relacionamento ainda existe?
Quando o relacionamento começa a diminuir seu mundo
Nem sempre a pessoa percebe imediatamente que está deixando de lado aspectos importantes de sua identidade.
Às vezes, esse processo acontece de maneira gradual.
Ela passa a perguntar menos a si mesma o que deseja. Começa a evitar conflitos a qualquer custo. Sente dificuldade para expressar opiniões diferentes e procura antecipar continuamente as expectativas do parceiro.
É importante compreender que fazer concessões não significa, por si só, anular-se.
Em qualquer relacionamento, existem momentos em que precisamos negociar interesses, adaptar rotinas e considerar as necessidades da outra pessoa.
A questão está na possibilidade de escolher.
Você consegue discordar sem sentir que precisa abandonar sua opinião para preservar o vínculo? Seus interesses também encontram espaço? As decisões importantes são construídas com respeito às necessidades de ambos?
Uma relação pode se tornar problemática quando a manutenção do vínculo depende de silenciar repetidamente aquilo que uma pessoa pensa, sente ou deseja.
Isso não significa que todos os relacionamentos com dificuldades apresentem o mesmo funcionamento ou que possamos diagnosticar uma relação a partir de uma única situação.
Significa reconhecer que a maneira como estamos vivendo uma relação merece atenção.
O que a ciência diz sobre autonomia nos relacionamentos?
Um estudo de Patrick e colaboradores (2007), publicado no Journal of Personality and Social Psychology, examinou a satisfação de necessidades psicológicas básicas no funcionamento dos relacionamentos amorosos.
Os pesquisadores consideraram três necessidades descritas pela Teoria da Autodeterminação:
- Autonomia: sentir que nossas atitudes e escolhas correspondem aos nossos valores, sem coerção.
- Competência: perceber que somos capazes de agir e lidar com os desafios da vida.
- Vínculo: experimentar proximidade, conexão e pertencimento.
Os resultados indicaram associações entre a satisfação dessas necessidades, o bem-estar individual e a qualidade dos relacionamentos.
Isso nos ajuda a compreender algo importante: autonomia e intimidade não precisam ser experiências opostas.
Estar próximo de alguém não exige que deixemos de pensar por nós mesmos.
Da mesma forma, manter interesses e escolhas individuais não significa amar menos.
Um relacionamento pode oferecer espaço para que duas pessoas desenvolvam projetos comuns e, ao mesmo tempo, preservem aquilo que as torna singulares.
Talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas se você ama seu companheiro, mas como você se reconhece nessa relação.
O que a Gestalt-terapia pode nos ensinar sobre isso?
Na Gestalt-terapia, damos especial atenção à experiência da pessoa em relação com o mundo.
Não procuramos compreender alguém isoladamente, como se seus sentimentos, comportamentos e escolhas existissem separados dos contextos em que vive.
Também consideramos importante perceber como a pessoa estabelece contato consigo, com os outros e com aquilo que acontece ao seu redor.
Nesse sentido, a experiência de um relacionamento pode ser explorada por meio de perguntas que ampliem a consciência sobre o modo como a pessoa está vivendo.
O que você sente quando precisa discordar?
O que acontece quando expressa uma necessidade diferente da necessidade do outro?
Como percebe seu corpo, suas emoções e seus pensamentos durante uma discussão?
O que você costuma fazer para preservar a relação?
Que possibilidades de escolha consegue reconhecer naquele momento?
Essas perguntas não constituem um teste para identificar relacionamentos saudáveis ou problemáticos. São possibilidades de investigação clínica.
Na perspectiva gestáltica, interessa compreender como cada pessoa vive sua experiência, quais sentidos constrói e como participa das relações que estabelece.
A ampliação da consciência pode favorecer o reconhecimento de necessidades e a construção de novas possibilidades de ação.
O trabalho do psicólogo não consiste em escolher pelo paciente se ele deve continuar ou terminar um relacionamento.
Consiste em ajudá-lo a compreender sua experiência, reconhecer suas possibilidades e participar de suas escolhas com maior consciência, considerando também sua segurança e suas condições concretas de vida.
Amar é crescer junto, não desaparecer
Existe um fenômeno estudado na Psicologia dos relacionamentos que considero especialmente interessante para essa reflexão.
É conhecido como fenômeno Michelangelo.
Em 1999, Stephen Drigotas e colaboradores investigaram como a percepção e o comportamento de um parceiro podem contribuir para que a outra pessoa se aproxime daquilo que considera seu próprio ideal de desenvolvimento.
A imagem é bonita: assim como um escultor ajuda a revelar uma forma, o relacionamento pode favorecer a expressão de potencialidades que a pessoa deseja desenvolver.
Mas existe uma diferença importante.
Não se trata de transformar o companheiro na pessoa que gostaríamos que ele fosse.
Trata-se de reconhecer e apoiar possibilidades que fazem sentido para ele próprio.
As pesquisas encontraram associações entre essa afirmação pelo parceiro, o desenvolvimento em direção ao próprio ideal e indicadores de qualidade do relacionamento.
Isso oferece uma reflexão importante.
Em vez de perguntar apenas se estamos mudando por causa de alguém, podemos investigar a direção dessa mudança.
Estamos nos aproximando da pessoa que desejamos ser ou nos afastando continuamente daquilo que reconhecemos como importante?
Cinco perguntas para refletir sobre seu relacionamento
Não existe uma resposta única que sirva para todas as pessoas. Cada relacionamento possui sua história, suas circunstâncias e seus desafios.
Ainda assim, algumas perguntas podem ajudar você a olhar com mais atenção para sua própria experiência:
- Consigo expressar o que sinto?
Observe se você encontra espaço para falar sobre suas emoções e necessidades, mesmo quando elas são diferentes das expectativas do parceiro.
- Continuo cultivando interesses próprios?
Pense nas atividades, amizades, projetos e experiências que permanecem importantes para você.
- Posso discordar com segurança?
Considere como os conflitos são vividos e se existe respeito durante as divergências.
- O relacionamento favorece meu desenvolvimento?
Reflita sobre as possibilidades de aprendizagem, crescimento e realização que encontra na convivência.
- Quem estou me tornando nessa relação?
Talvez esta seja a pergunta que reúna todas as outras.
Não se trata de procurar um relacionamento sem conflitos. Trata-se de compreender como você vive, escolhe e se reconhece na história que está construindo.
Essas perguntas são recursos de reflexão, não instrumentos de avaliação psicológica ou de diagnóstico.
Quando procurar ajuda psicológica?
Algumas pessoas conseguem reconhecer dificuldades relacionais e construir mudanças por meio do diálogo. Em outras situações, o sofrimento se prolonga e interfere no bem-estar, na autoestima, no trabalho e na convivência.
O acompanhamento psicológico pode oferecer um espaço para compreender padrões relacionais, sentimentos, necessidades e possibilidades de escolha.
É importante fazer uma distinção: quando existem ameaças, coerção, isolamento imposto, humilhações persistentes ou violência, a situação exige uma avaliação cuidadosa da segurança da pessoa. Nesses casos, não se deve presumir que a terapia de casal seja sempre a intervenção adequada.
O cuidado deve considerar a autonomia, a proteção e as particularidades de cada situação.
O que os psicólogos precisam compreender sobre relacionamentos?
Para profissionais da Psicologia, trabalhar com questões amorosas exige conhecimentos que ultrapassam orientações genéricas sobre comunicação ou autoestima.
É necessário compreender a história dos vínculos, os processos de construção da identidade, a conjugalidade, as configurações familiares, os conflitos, as rupturas e as situações de violência.
Também é fundamental reconhecer que o sofrimento apresentado por uma pessoa não pode ser compreendido apenas a partir de características individuais, sem considerar suas relações e seu contexto.
A formação especializada oferece oportunidades para aprofundar essas dimensões e desenvolver recursos de avaliação, escuta e intervenção clínica.
Formação em Psicologia dos Vínculos: atendimento a casais e famílias
Se você é psicólogo e deseja ampliar sua compreensão sobre relacionamentos, conjugalidade, conflitos e dinâmicas familiares, conheça a Pós-Graduação em Psicologia dos Vínculos — Atendimento a Casais e Famílias, do Instituto Suassuna.
A formação reúne fundamentos teóricos, discussões clínicas e conhecimentos direcionados à atuação profissional com casais e famílias.
Conheça a pós-graduação em Psicologia dos Vínculos, Casais e Famílias.
Uma última reflexão
Ao longo da vida, nossos relacionamentos nos transformam. Aprendemos, mudamos, fazemos escolhas e descobrimos possibilidades que talvez não encontrássemos sozinhos.
Essa transformação faz parte da experiência humana.
Mas gostaria de deixar uma pergunta para você:
Ao olhar para a pessoa que você se tornou dentro do seu relacionamento, o que consegue reconhecer de si mesma?
Talvez essa pergunta possa iniciar uma conversa importante.
Porque amar também pode significar encontrar espaço para continuar sendo quem somos, enquanto construímos algo novo com outra pessoa.
Dra. Virgínia Suassuna
Psicóloga, pós-doutora em Casal e Família pela PUC-Rio, doutora em Ciências da Saúde, gestalt-terapeuta, professora, escritora e supervisora clínica.
⸻
Referências científicas
- SLOTTER, E. B.; GARDNER, W. L.; FINKEL, E. J. Who am I without you? The influence of romantic breakup on the self-concept. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 36, n. 2, p. 147–160, 2010. https://doi.org/10.1177/0146167209352250
- PATRICK, H.; KNEE, C. R.; CANEVELLO, A.; LONSBARY, C. The role of need fulfillment in relationship functioning and well-being: a self-determination theory perspective. Journal of Personality and Social Psychology, v. 92, n. 3, p. 434–457, 2007. https://doi.org/10.1037/0022-3514.92.3.434
- DRIGOTAS, S. M.; RUSBULT, C. E.; WIESELQUIST, J.; WHITTON, S. Close partner as sculptor of the ideal self: Behavioral affirmation and the Michelangelo phenomenon. Journal of Personality and Social Psychology, v. 77, n. 2, p. 293–323, 1999. https://doi.org/10.1037/0022-3514.77.2.293
Este artigo possui caráter educativo e não substitui uma avaliação psicológica individualizada.