Dr. Danilo Suassuna (2026)

Um ciclo de tratamento pode terminar antes da transferência de um embrião. Uma tentativa pode chegar ao resultado negativo. Em outra situação, a equipe comunica que as possibilidades com determinada técnica se esgotaram. Para quem acompanha de fora, esses acontecimentos podem parecer etapas de um processo médico. Quem os vive precisa lidar com aquilo que havia esperado, planejado e investido naquela tentativa.

O desejo de ter um filho pode ocupar a vida muito antes de uma gestação. Participa das conversas, das decisões financeiras, da organização do trabalho e da maneira como a pessoa imagina os próximos anos. Quando esse projeto encontra obstáculos, parte desse futuro precisa ser reconsiderada.

É nesse contexto que o luto pode aparecer na experiência da infertilidade. Reconhecê-lo exige atenção ao significado da perda para cada pessoa e preparo para acompanhar um sofrimento que, muitas vezes, recebe pouco espaço nas relações.

Esse será um dos temas do I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna.

As perdas que precisam encontrar palavras

Na clínica, a expressão “luto simbólico” pode ajudar a compreender perdas relacionadas a possibilidades, expectativas e projetos de vida. Na infertilidade, isso pode envolver a perspectiva de engravidar, de ter um filho com vínculo genético ou de construir a família no tempo imaginado.

O termo descreve uma experiência possível. Seu uso precisa acompanhar o relato do paciente, respeitando a maneira como ele compreende o que aconteceu. Algumas pessoas reconhecem imediatamente uma perda. Outras falam de frustração, injustiça, esgotamento ou de uma dificuldade para imaginar o futuro.

Um estudo qualitativo realizado na Suécia entrevistou dez mulheres e nove homens três anos após o encerramento de tratamentos de fertilização in vitro sem sucesso. Muitos participantes ainda elaboravam a experiência de permanecer sem filhos e relataram necessidades de apoio que haviam ficado sem resposta. O estudo também identificou perguntas deixadas em aberto por um encerramento pouco estruturado do tratamento. Por se tratar de uma pesquisa pequena e situada em um contexto específico, seus resultados ajudam a compreender experiências possíveis, sem definir como todas as pessoas irão reagir.

Para o psicólogo, a tarefa é compreender o que aquela tentativa representava e o que mudou depois do resultado. A resposta depende da história, dos vínculos, das condições de vida e do lugar que a parentalidade ocupa para aquela pessoa.

A expectativa de outra tentativa pode apressar a conversa

Depois de um resultado negativo, é comum que a atenção se volte rapidamente ao próximo procedimento. A equipe precisa discutir possibilidades clínicas. A família procura oferecer esperança. O próprio paciente pode querer organizar outra tentativa imediatamente.

Nesse movimento, vale reservar espaço para compreender o impacto do que acabou de acontecer. A possibilidade de continuar o tratamento pode coexistir com tristeza, cansaço e necessidade de pausa.

Frases como “na próxima vai dar certo” podem ser ditas com afeto, mas também podem dificultar uma conversa sobre a perda atual. A pessoa talvez queira falar sobre o que viveu antes de discutir o que fará depois.

No acompanhamento psicológico, essa escuta exige disponibilidade para sustentar a incerteza. O profissional precisa reconhecer quando está tentando aliviar seu próprio desconforto ao oferecer uma resposta rápida para uma situação dolorosa.

O planejamento das próximas etapas ganha qualidade quando há condições de conversar sobre expectativas, limites e recursos disponíveis.

O sofrimento pode passar despercebido nas relações

A ausência de uma gestação pode tornar a perda difícil de reconhecer para familiares e amigos. Não houve um nascimento, talvez poucas pessoas soubessem do tratamento e a rotina continua exigindo presença no trabalho e nos compromissos sociais.

Nessas circunstâncias, o paciente pode precisar explicar repetidamente por que está sofrendo ou preferir guardar a experiência. A escuta clínica oferece um espaço para conhecer esse contexto e avaliar como as relações estão participando dele.

Uma pesquisa qualitativa publicada em Human Reproduction, em 2020, examinou a experiência de mulheres de meia-idade que permaneceram involuntariamente sem filhos. Os relatos destacaram a natureza intangível da perda e os esforços para construir formas de viver com ela. Esses achados ajudam a compreender por que o sofrimento pode permanecer relevante mesmo quando outras pessoas consideram o assunto encerrado.

Isso pede cuidado com expectativas de recuperação rápida. Voltar ao trabalho, participar de encontros ou retomar atividades informa sobre aspectos da vida cotidiana, mas a compreensão da experiência depende de conversar com a própria pessoa.

Cada parceiro precisa ter espaço para ser ouvido

Quando existe um casal, os sentidos atribuídos à tentativa podem ser diferentes. Um parceiro pode desejar conversar com frequência, enquanto o outro procura organizar tarefas ou se recolhe. Também podem surgir divergências sobre continuar, interromper ou considerar outras possibilidades.

Na avaliação clínica, essas diferenças precisam ser investigadas antes de receber interpretações sobre intensidade do desejo ou qualidade do vínculo. Importa compreender como cada pessoa expressa sofrimento, pede ajuda e percebe as necessidades do outro.

O atendimento pode favorecer conversas sobre o que cada um consegue oferecer naquele momento. Também permite reconhecer quando alguém assumiu a responsabilidade de sustentar emocionalmente o parceiro e deixou suas próprias necessidades sem espaço.

Decisões sobre doação de gametas, adoção ou encerramento do tratamento exigem elaboração própria. Apresentá-las apressadamente como solução pode reduzir o espaço necessário para compreender os desejos e limites envolvidos.

O que o psicólogo precisa avaliar

Reconhecer uma experiência de luto faz parte de uma avaliação mais ampla. É necessário conhecer sua repercussão no cotidiano, o apoio disponível, a história de saúde mental e as condições atuais de enfrentamento.

Durante o acompanhamento, merecem atenção o sono, a alimentação, o trabalho, os vínculos, a intensidade do sofrimento e a presença de desesperança ou risco. Esses elementos orientam a construção do cuidado e a necessidade de articulação com outros profissionais.

A expressão “luto simbólico” não constitui, por si, um diagnóstico. Seu valor clínico está em ajudar a compreender a experiência, sem impor uma interpretação ao paciente ou substituir a avaliação de outras necessidades.

As diretrizes da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a ESHRE, orientam os serviços a reconhecer necessidades psicossociais ao longo do tratamento. O documento também explicita limitações das evidências disponíveis após tratamentos sem sucesso, o que reforça a importância de uma avaliação individualizada e de cautela nas generalizações.

A intervenção pode envolver elaboração da perda, comunicação entre parceiros, reorganização da rotina e fortalecimento da rede de apoio. A escolha dos recursos depende da demanda identificada e da formação do profissional.

Formação para acompanhar decisões difíceis

Atuar nessa área exige familiaridade com o percurso reprodutivo e sensibilidade para os significados que ele assume. O psicólogo precisa compreender o momento do tratamento, dialogar com a equipe e reconhecer quando o paciente necessita de mais tempo, informação ou suporte.

Essa é uma dimensão importante da Psicologia Atuante do Instituto Suassuna. A formação deve preparar o profissional para reconhecer demandas concretas e construir intervenções fundamentadas, com respeito à singularidade de quem atende.

No I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial, as perdas relacionadas à infertilidade serão discutidas junto aos avanços científicos, aos dilemas éticos e às possibilidades de atuação clínica.

O encontro nasce da Pós-Graduação em Reprodução Humana Assistida do Instituto Suassuna e oferece um espaço para aprofundar conhecimentos e trocar experiências com profissionais de diferentes áreas.

Participe para ampliar sua compreensão sobre o luto na infertilidade e qualificar o cuidado oferecido a quem atravessa esse processo.

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Referências

VOLGSTEN, H.; SKOOG SVANBERG, A.; OLSSON, P. Unresolved grief in women and men in Sweden three years after undergoing unsuccessful in vitro fertilization treatment. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, v. 89, n. 10, p. 1290–1297, 2010. Acessar artigo.

‘Either stay grieving, or deal with it’: the psychological impact of involuntary childlessness for women living in midlife. Human Reproduction, 2020. Acessar artigo.

GAMEIRO, S. et al. ESHRE guideline: routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction: a guide for fertility staff. Human Reproduction, v. 30, n. 11, p. 2476–2485, 2015. Acessar artigo.

⚠️ Nota editorial: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional, produzido por profissionais de Psicologia credenciados. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado. Em caso de sofrimento psíquico, procure um psicólogo ou serviço de saúde mental.