Entenda por que o uso da inteligência artificial por crianças e adolescentes está sendo questionado nos Estados Unidos e o que a Psicologia pode fazer para proteger o desenvolvimento cognitivo e emocional dos estudantes.

Uma criança chega da escola, abre o computador e encontra uma atividade de matemática. Antes de tentar resolver o primeiro exercício, pergunta à inteligência artificial como fazer. Em poucos segundos, recebe uma resposta organizada, explicada e aparentemente perfeita.

A tarefa está concluída. Mas quanto daquela atividade realmente se transformou em aprendizagem?

Essa situação, cada vez mais comum, ajuda a compreender uma discussão que ganhou força nos Estados Unidos em outubro de 2026.

Os senadores norte-americanos Richard Blumenthal e Josh Hawley enviaram, em 21 de outubro, uma carta ao Google solicitando esclarecimentos sobre os possíveis impactos de ferramentas de inteligência artificial no desenvolvimento cognitivo, na aprendizagem e na saúde mental de crianças e adolescentes.

A iniciativa aconteceu após uma investigação do jornal The Wall Street Journal, que ouviu mais de 60 professores, estudantes, familiares e profissionais de saúde.

Entre as preocupações relatadas estavam estudantes com dificuldades para realizar atividades sem a ajuda da tecnologia, uso excessivo de assistentes virtuais e situações de envolvimento emocional com sistemas de inteligência artificial.

O Google afirma desenvolver mecanismos de segurança para usuários menores de idade e ferramentas educacionais voltadas ao aprendizado. Os senadores solicitaram respostas adicionais até 2 de novembro de 2026.

O caso merece atenção. Entretanto, os relatos apresentados pela investigação jornalística ainda não demonstram que a inteligência artificial provoque prejuízos cognitivos ou transtornos psicológicos de maneira generalizada.

A ciência já oferece algumas evidências importantes para compreender essa relação.

O que acontece quando a inteligência artificial começa a pensar pelo estudante?

Aprender exige uma participação ativa do estudante.

Quando uma criança tenta resolver um problema, precisa mobilizar conhecimentos anteriores, organizar informações, formular hipóteses, perceber erros e encontrar alternativas.

Esses processos participam do desenvolvimento de habilidades cognitivas fundamentais, como memória de trabalho, planejamento, monitoramento do próprio desempenho e flexibilidade cognitiva.

A inteligência artificial pode ajudar nessas atividades. Entretanto, quando entrega respostas prontas repetidamente, pode reduzir oportunidades para que o estudante exercite essas habilidades.

Pesquisadores chamam de cognitive offloading, ou descarga cognitiva, o processo de transferir determinadas operações mentais para recursos externos.

Fazemos isso diariamente quando utilizamos calculadoras, agendas e ferramentas digitais. O fenômeno, por si só, não representa um problema.

A questão educacional aparece quando a ferramenta passa a executar justamente os processos que o estudante precisava aprender.

Imagine um adolescente que utiliza a inteligência artificial para elaborar todas as suas redações.

Ele pode entregar textos com excelente organização, vocabulário sofisticado e argumentação consistente. Mas, diante de uma avaliação sem acesso ao sistema, talvez apresente dificuldades para organizar as próprias ideias.

A qualidade de uma atividade concluída nem sempre corresponde à aprendizagem efetivamente adquirida.

O que dizem as pesquisas científicas?

Um estudo publicado em 2025 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) investigou o uso de inteligência artificial por aproximadamente mil estudantes do ensino médio em atividades de matemática.

Os pesquisadores compararam ferramentas que ofereciam respostas de maneira mais direta com sistemas elaborados para orientar a resolução dos exercícios.

Os resultados mostraram melhora no desempenho durante as atividades realizadas com inteligência artificial.

Entretanto, estudantes que utilizaram a ferramenta menos orientada pedagogicamente apresentaram desempenho aproximadamente 17% inferior ao grupo de controle quando precisaram realizar uma avaliação sem a tecnologia.

Esse prejuízo foi amplamente atenuado quando a inteligência artificial oferecia pistas e orientações, preservando a participação ativa do estudante.

A pesquisa evidencia a importância da maneira como a ferramenta é utilizada.

Em 2026, outro estudo experimental, publicado na Educational Psychology Review, acompanhou 371 estudantes do ensino fundamental e investigou intervenções de inteligência artificial voltadas à aprendizagem autorregulada.

Os resultados identificaram benefícios em determinados aspectos motivacionais, mas não demonstraram vantagens estatisticamente significativas em conhecimento e outras medidas cognitivas avaliadas.

Também existem pesquisas com universitários que encontraram benefícios no aprendizado quando a inteligência artificial foi utilizada para explicar conceitos e ampliar a compreensão.

Portanto, os resultados científicos variam conforme a idade, o contexto educacional, o desenho da ferramenta e a forma de utilização.

A inteligência artificial pode interferir no desenvolvimento do pensamento crítico?

O pensamento crítico envolve analisar informações, questionar argumentos, comparar alternativas e construir conclusões fundamentadas.

Uma pessoa desenvolve essas habilidades por meio de experiências, discussões, desafios e oportunidades de reflexão.

O psicólogo Albert Bandura contribuiu para a compreensão da aprendizagem, destacando a importância das experiências de domínio e da percepção de autoeficácia.

Barry Zimmerman, pesquisador da aprendizagem autorregulada, também demonstrou a relevância da capacidade de estabelecer objetivos, acompanhar o próprio desempenho e ajustar estratégias.

Esses conhecimentos ajudam a compreender uma questão essencial para a educação contemporânea: estudantes precisam desenvolver confiança na própria capacidade de compreender e resolver problemas.

Quando encontram uma dificuldade e conseguem superá-la, constroem experiências importantes de competência.

Imagine uma criança que tenta montar um quebra-cabeça.

Durante alguns minutos, experimenta possibilidades, erra, reorganiza peças e encontra soluções.

Agora imagine que um adulto monte o quebra-cabeça por ela todas as vezes.

O resultado será alcançado com rapidez. Mas a experiência de descoberta será diferente.

Na aprendizagem escolar, a inteligência artificial pode funcionar de maneira semelhante.

Por isso, professores e psicólogos precisam observar se o estudante utiliza a tecnologia para compreender melhor um conteúdo ou para evitar sistematicamente o esforço envolvido em aprendê-lo.

E a saúde mental? Crianças podem desenvolver vínculos emocionais com a inteligência artificial?

Esse talvez seja um dos aspectos mais delicados da discussão.

Assistentes virtuais conseguem responder com linguagem acolhedora, demonstrar disponibilidade permanente e adaptar suas respostas ao conteúdo emocional apresentado pelo usuário.

Para uma criança ou adolescente que enfrenta solidão, dificuldades familiares ou problemas de relacionamento, essas características podem tornar a interação especialmente atraente.

Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista JAMA Pediatrics analisou informações de 39.761 estudantes canadenses.

Entre os participantes, 21,1% relataram utilizar inteligência artificial para apoio emocional ou aconselhamento.

Os pesquisadores encontraram uma associação entre esse tipo de uso e maiores indicadores de dificuldades emocionais.

É necessário interpretar esse resultado com cuidado.

O estudo foi transversal e não permite afirmar que a inteligência artificial tenha provocado sofrimento psicológico. Também é possível que jovens que já experimentavam dificuldades emocionais procurassem esses sistemas com maior frequência.

Ainda assim, os resultados indicam que psicólogos precisam começar a investigar essa dimensão da vida digital dos pacientes.

Uma adolescente pode conversar diariamente com um assistente virtual sobre conflitos familiares, relacionamentos amorosos, autoestima e sentimentos de rejeição.

O problema pode surgir quando essas interações passam a ocupar um espaço excessivo em sua vida emocional, especialmente se ocorrer afastamento de relações humanas e resistência à procura de ajuda.

A qualidade das respostas também importa. Sistemas de inteligência artificial podem interpretar inadequadamente situações psicológicas complexas e apresentar orientações incompatíveis com a gravidade de determinados acontecimentos.

Em situações de sofrimento intenso, automutilação, violência ou ideação suicida, crianças e adolescentes precisam de proteção, avaliação profissional e uma rede humana de cuidado.

O que pais e professores precisam observar?

Uma pesquisa da organização Common Sense Media, publicada em junho de 2026, ouviu 1.204 crianças e adolescentes norte-americanos entre 9 e 17 anos.

O levantamento identificou que 86% dos participantes utilizavam alguma forma de inteligência artificial.

Mais de quatro em cada dez relataram nunca ter conversado com pais ou responsáveis sobre segurança no uso dessas ferramentas.

Esse resultado ajuda a compreender a distância que pode existir entre a velocidade de adoção da tecnologia e a preparação das famílias para acompanhar seu uso.

É importante observar mudanças concretas no comportamento das crianças e adolescentes.

Alguns exemplos são a dificuldade crescente para iniciar atividades sem consultar a inteligência artificial, a redução da tolerância a erros, a perda de interesse em resolver problemas autonomamente e a preferência persistente por conversar com sistemas virtuais em detrimento de pessoas próximas.

Esses comportamentos devem ser compreendidos considerando o contexto, a frequência, a intensidade e os possíveis prejuízos. Isoladamente, não permitem diagnosticar dependência ou qualquer transtorno psicológico.

Cinco orientações para ajudar crianças e adolescentes a utilizar a inteligência artificial

1. Incentive a tentativa antes da resposta

Antes de recorrer à inteligência artificial, peça que a criança tente resolver a atividade e explique seu raciocínio.

A tecnologia poderá ser utilizada posteriormente para esclarecer dúvidas, apresentar alternativas e ajudar a identificar erros.

2. Ensine a questionar o que a tecnologia apresenta

Uma resposta bem escrita pode conter informações incorretas.

Estimule o estudante a conferir fontes, identificar argumentos e comparar diferentes explicações.

A capacidade de avaliar informações será cada vez mais importante em uma sociedade que utiliza sistemas generativos.

3. Preserve experiências de aprendizagem sem inteligência artificial

Leitura, escrita, resolução de problemas, conversas presenciais e atividades criativas continuam importantes para o desenvolvimento.

Escolas podem combinar atividades com apoio tecnológico e avaliações que permitam observar o desempenho independente do estudante.

4. Converse sobre os relacionamentos digitais

Pergunte como a criança utiliza assistentes virtuais, quais assuntos costuma conversar e como se sente depois dessas interações.

A curiosidade dos adultos pode favorecer o diálogo e ajudar a identificar situações de risco.

É importante explicar que respostas aparentemente empáticas são produzidas por um sistema computacional e não substituem relações humanas ou acompanhamento psicológico.

5. Procure orientação psicológica quando houver sofrimento ou prejuízo

Alterações persistentes de comportamento, isolamento, sofrimento emocional ou dificuldades significativas na rotina escolar merecem atenção.

O psicólogo pode ajudar a compreender como a tecnologia participa dessas experiências, investigar fatores associados e orientar estratégias de cuidado envolvendo o estudante, a família e a escola.

O papel da Psicologia no desenvolvimento infantil diante da inteligência artificial

A expansão da inteligência artificial cria novas demandas para diferentes especialidades da Psicologia.

Na Psicologia Escolar e Educacional, profissionais podem investigar como os estudantes utilizam essas ferramentas e desenvolver estratégias para preservar autonomia, participação e aprendizagem.

Na Neuropsicologia, conhecimentos sobre atenção, memória, funções executivas e autorregulação ajudam a analisar o desempenho cognitivo e compreender dificuldades apresentadas pelos estudantes.

Na Psicologia Clínica, torna-se importante investigar como as interações digitais participam da construção da identidade, da autoestima, das relações interpessoais e da regulação emocional.

Também existe espaço para pesquisas longitudinais, intervenções em escolas e desenvolvimento de instrumentos de observação.

As famílias precisam de orientações fundamentadas cientificamente. Os professores precisam compreender possibilidades e limites pedagógicos da tecnologia. E os psicólogos precisam ampliar sua capacidade de investigar um ambiente que já participa da vida cotidiana de seus pacientes.

Instituto Suassuna: formando psicólogos para compreender as novas demandas da sociedade

O Instituto Suassuna trabalha com uma concepção de formação que valoriza a transformação do conhecimento científico em atuação profissional.

O avanço da inteligência artificial na infância e na adolescência reforça a importância de uma Psicologia capaz de acompanhar as mudanças sociais e tecnológicas.

Entre os campos que merecem atenção estão a aprendizagem autorregulada, o desenvolvimento das funções executivas, a avaliação psicológica e neuropsicológica, a orientação parental e os impactos das relações digitais sobre o desenvolvimento socioemocional.

Esses conteúdos também apontam para uma oportunidade de formação interdisciplinar em Psicologia, Inteligência Artificial e Desenvolvimento Infantojuvenil, reunindo conhecimentos científicos e ferramentas práticas para atuação em escolas, consultórios e instituições educacionais.

O compromisso com a formação de psicólogos atuantes exige compreender os novos contextos em que crianças e adolescentes aprendem, convivem e se desenvolvem.

Conheça as pós-graduações do Instituto Suassuna e amplie sua preparação para os desafios contemporâneos da prática psicológica.

Sua família precisa de orientação psicológica?

Se você percebe que seu filho apresenta dificuldades emocionais, mudanças importantes de comportamento ou sofrimento relacionado à vida escolar e digital, buscar uma avaliação profissional pode ajudar.

O Todos Cuidados, projeto de atendimento psicológico acessível vinculado ao ecossistema do Instituto Suassuna, aproxima pessoas e famílias de profissionais preparados para oferecer escuta e cuidado.

A tecnologia continuará fazendo parte de nossas vidas. Precisamos assegurar que crianças e adolescentes tenham oportunidades de desenvolver suas próprias capacidades, estabelecer relações significativas e construir autonomia para enfrentar os desafios do mundo.

Texto compilado por Dr. Danilo Suassuna

Psicólogo | Doutor em Psicologia | Pós-doutor em Psicologia e Educação | Instituto Suassuna

Referências científicas e documentais

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  4. BONNESEN, K. et al. Affective Generative Artificial Intelligence Use and Youth Mental Health. JAMA Pediatrics, 2026. https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2026.3904.
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  7. OECD. OECD Digital Education Outlook 2026. Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 2026.
  8. ZIMMERMAN, B. J. Becoming a Self-Regulated Learner: An Overview. Theory Into Practice, v. 41, n. 2, 2002. https://doi.org/10.1207/s15430421tip4102_2.

⚠️ Nota editorial: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional, produzido por profissionais de Psicologia credenciados. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado. Em caso de sofrimento psíquico, procure um psicólogo ou serviço de saúde mental.