Dr Danilo Suassuna (2026)
A pessoa chega ao atendimento entre consultas, exames e decisões. Talvez esteja tentando compreender uma indicação de tratamento, convivendo com dor ou discutindo com a parceria como construir uma família. O psicólogo precisa reconhecer a demanda, definir objetivos e escolher recursos adequados àquele momento.
Esse trabalho exige conhecimento sobre reprodução humana e capacidade de transformar a avaliação em uma proposta de cuidado. A escolha entre acompanhamento individual, atendimento ao casal ou atividade em grupo depende das necessidades identificadas, das condições do serviço e da formação do profissional.
No I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna, essa dimensão prática aparece em temas como psicoeducação em grupo, cuidado integrado na endometriose e atendimento a casais homoafetivos. São possibilidades de atuação que merecem ser estudadas com atenção à sua finalidade, às evidências e aos limites de aplicação.
A intervenção começa pela compreensão da demanda
Receber um encaminhamento de uma clínica de reprodução assistida ainda deixa muito a conhecer. A pessoa pode precisar de apoio para lidar com a espera, elaborar uma perda, conversar sobre doação de gametas ou enfrentar dificuldades no relacionamento.
O primeiro movimento clínico envolve compreender o momento do tratamento e sua repercussão na vida. Também importa conhecer o que o paciente espera do acompanhamento e o motivo pelo qual foi encaminhado.
As diretrizes da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a ESHRE, orientam a identificação das necessidades psicossociais ao longo do percurso reprodutivo e sua integração ao cuidado oferecido pelos serviços. Isso exige atenção às mudanças que acontecem entre as etapas do tratamento.
A partir dessa avaliação, o profissional pode estabelecer objetivos compreensíveis e acompanhar sua pertinência. Um trabalho inicialmente voltado à comunicação com a equipe pode precisar incluir a elaboração de um resultado inesperado. O planejamento clínico deve permitir esses ajustes.
Psicoeducação em grupo: informação que pode ser trabalhada em conjunto
A psicoeducação oferece recursos para compreender experiências, reconhecer necessidades e discutir formas de enfrentamento. Em um grupo voltado à reprodução assistida, pode abordar a espera por resultados, a comunicação com familiares, a organização da rotina e a busca de apoio.
Para planejar esse trabalho, é necessário definir o público, os objetivos dos encontros e os critérios de participação. Pessoas em momentos muito diferentes do tratamento podem apresentar necessidades que exigem atenção na composição e na condução do grupo.
Uma proposta pode começar pelo levantamento das dúvidas dos participantes e avançar para temas delimitados. O psicólogo pode trabalhar a identificação de fontes confiáveis, a preparação de perguntas para consultas e a comunicação de limites à rede de apoio. Questões sobre medicamentos, prognóstico e procedimentos devem ser esclarecidas pelos profissionais responsáveis.
O enquadre também precisa ser explícito. Participação voluntária, respeito à privacidade e acordos de confidencialidade ajudam a organizar o trabalho, embora o profissional deva explicar os limites do controle sobre informações compartilhadas entre participantes.
Esses são elementos de planejamento, a serem adaptados à avaliação e ao contexto do serviço. A indicação de um grupo deve considerar sua adequação à pessoa e a eventual necessidade de acompanhamento individual.
Endometriose: acompanhar a dor e suas repercussões
No atendimento a pessoas com endometriose, a avaliação psicológica precisa conhecer como os sintomas atravessam o cotidiano. Trabalho, sexualidade, sono, relações e expectativas reprodutivas podem fazer parte da demanda.
A expressão “integração corpo-mente” exige precisão. Na prática, ela pode orientar um cuidado atento às relações entre sintomas físicos, experiência emocional, comportamentos e condições de vida. A endometriose requer acompanhamento médico, e explicações que atribuem sua origem a conflitos emocionais extrapolam as evidências.
A diretriz da ESHRE de 2022 recomenda discutir estratégias voltadas à qualidade de vida e ao bem-estar psicológico. Naquele documento, as evidências eram insuficientes para recomendar uma intervenção não médica específica como forma de reduzir a dor ou melhorar a qualidade de vida, entre as modalidades examinadas. Esse limite precisa ser considerado ao apresentar propostas de cuidado.
O psicólogo pode construir objetivos relacionados ao sofrimento identificado: comunicar necessidades, reconhecer sobrecargas, lidar com preocupações e reorganizar atividades possíveis. Recursos de manejo do estresse ou de atenção às sensações corporais precisam ter indicação clara, respeitar a tolerância da pessoa e ser acompanhados quanto aos seus efeitos.
A articulação com ginecologia, fisioterapia e outras áreas permite discutir necessidades que ultrapassam a competência de um único profissional. O plano deve manter clareza sobre a contribuição de cada intervenção.
Casais homoafetivos: conhecer o projeto parental de cada família
O atendimento a casais homoafetivos exige familiaridade com as possibilidades de construção da parentalidade e atenção às particularidades de cada história. A orientação sexual, por si, oferece pouca informação sobre as necessidades clínicas daquele casal.
É necessário conhecer como o projeto foi construído, quais decisões estão em discussão e como cada pessoa participa delas. Dependendo do percurso, podem surgir questões sobre doação de gametas, vínculo genético, gestação, reconhecimento familiar e comunicação sobre a origem da criança.
Em parecer sobre acesso aos tratamentos de fertilidade, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, a ASRM, defende igualdade de respeito e atendimento independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou estado civil.
Isso precisa aparecer na rotina do serviço. Formulários, linguagem e condução das consultas devem permitir que as pessoas apresentem seus vínculos sem corrigir continuamente pressupostos da equipe.
O acompanhamento pode incluir conversas sobre expectativas parentais, participação de cada parceiro e rede de apoio. Experiências de preconceito merecem ser investigadas quando presentes, com atenção à repercussão na confiança nos serviços e na vida familiar.
A ASRM também publicou, em 2026, orientações específicas sobre cuidado em fertilidade e construção familiar de pessoas LGBTQ+, destacando a necessidade de atendimento fundamentado e adequado às particularidades dessa população.
Recursos clínicos precisam de objetivos e acompanhamento
Uma ferramenta adquire sentido dentro de uma proposta de cuidado. Antes de utilizá-la, o psicólogo precisa definir o que pretende trabalhar, por que aquele recurso é pertinente e como acompanhará seus efeitos.
Um levantamento da rede de apoio pode ajudar a reconhecer pessoas disponíveis e necessidades de suporte. Um registro de dúvidas pode organizar a conversa com a equipe. Um atendimento ao casal pode abrir espaço para decisões que vinham sendo evitadas. Cada possibilidade depende da avaliação e do acordo com os pacientes.
O acompanhamento dos resultados também faz parte da atuação. Importa observar se houve maior clareza sobre uma decisão, melhora na comunicação, acesso ao apoio necessário ou mudança no sofrimento que motivou o atendimento. Os objetivos psicológicos precisam ser avaliados por critérios coerentes com o trabalho realizado.
Conhecer uma proposta em um evento oferece referências para estudo e planejamento. Sua incorporação à prática exige domínio técnico, avaliação do contexto e, quando necessário, supervisão.
Um encontro voltado à atuação do psicólogo
O I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna aproxima pesquisa, experiências profissionais e possibilidades de intervenção. Psicoeducação em grupo, cuidado na endometriose e atendimento a casais homoafetivos integram essa discussão sobre o trabalho cotidiano.
Para quem já atende, é uma oportunidade de examinar escolhas clínicas e ampliar o repertório. Para quem deseja ingressar na área, permite conhecer demandas e identificar conhecimentos que precisam ser aprofundados.
O encontro nasce da Pós-Graduação em Reprodução Humana Assistida e expressa o compromisso do Instituto Suassuna com a Psicologia Atuante: preparar o psicólogo para avaliar, planejar e desenvolver um cuidado fundamentado nas situações reais de trabalho.
Participe e conheça possibilidades de atuação para qualificar seu atendimento em reprodução humana.
Garantir minha vaga no I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial
Referências
GAMEIRO, S. et al. ESHRE guideline: routine psychosocial care in infertility and medically assisted reproduction: a guide for fertility staff. Human Reproduction, v. 30, n. 11, p. 2476–2485, 2015. Acessar artigo.
BECKER, C. M. et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open, v. 2022, n. 2, hoac009, 2022. Acessar artigo.
AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. Access to fertility treatment irrespective of marital status, sexual orientation, or gender identity: an Ethics Committee opinion. 2021. Acessar publicação.
AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. Fertility care and family building for LGBTQ+ individuals: a committee opinion. 2026. Acessar publicação.