Dr. Danilo Suassuna (2026)

A indicação de ovodoação pode chegar depois de várias tentativas de tratamento. Para a equipe, abre-se uma possibilidade clínica. Para a paciente, começa uma conversa sobre vínculo genético, maternidade, história familiar e o futuro filho. A informação precisa ser compreendida, mas também precisa encontrar lugar naquela história.

Situações como essa fazem parte da reprodução humana assistida. Decisões sobre gametas, embriões e continuidade do tratamento envolvem valores pessoais, conhecimento científico, condições financeiras e relações. O profissional precisa reconhecer essas dimensões e saber como conduzir a conversa sem antecipar uma resposta pelo paciente.

A bioética oferece referências para esse trabalho. Ajuda a examinar os benefícios esperados, os riscos, a autonomia das pessoas e as responsabilidades de quem participa do cuidado.

Esse será um dos temas do I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna, com discussões sobre ovodoação, seleção embrionária, limites da técnica, fé e ciência.

Uma decisão informada exige compreensão e liberdade

No tratamento reprodutivo, o consentimento precisa ser construído ao longo das conversas. A pessoa deve compreender as possibilidades disponíveis e ter condições de relacioná-las aos próprios valores.

Em parecer de 2023, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, a ASRM, recomenda um processo de decisão compartilhada que apresente riscos, benefícios, resultados esperados e alternativas, incluindo a possibilidade de não realizar o tratamento. O documento também destaca a necessidade de atenção às pressões exercidas por parceiros e familiares.

Para o psicólogo, interessa compreender como a decisão está sendo vivida. A concordância pode estar acompanhada de dúvidas que a pessoa ainda não conseguiu expressar. O medo de decepcionar alguém, a urgência percebida e o investimento já realizado merecem espaço na escuta.

Isso não significa presumir incapacidade de decidir diante do sofrimento. O acompanhamento pode favorecer a expressão de dúvidas e limites, preservando a participação ativa do paciente.

Ovodoação: o significado do vínculo genético precisa ser escutado

A possibilidade de receber óvulos de uma doadora pode ser acolhida de maneiras distintas. Algumas pessoas encontram nessa alternativa uma continuidade para o projeto de ter filhos. Outras precisam elaborar expectativas relacionadas à transmissão genética, à semelhança física e ao modo como imaginavam a maternidade.

O atendimento exige disponibilidade para compreender essas diferenças. O significado atribuído à genética deve ser investigado com respeito, sem tratar dúvidas como resistência a ser vencida.

As recomendações da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a ESHRE, sobre doação reprodutiva incluem as necessidades de informação e as implicações psicossociais para doadores, futuros pais e pessoas concebidas por doação. Também abordam a comunicação sobre a origem por doação ao longo da vida familiar.

Essa perspectiva amplia o horizonte da conversa. Além da realização do procedimento, entram em discussão as relações familiares e a maneira de abordar a história de concepção com o futuro filho.

O psicólogo pode ajudar a explorar esses temas, acolher ambivalências e identificar informações que precisam ser esclarecidas pela equipe. A decisão exige tempo de elaboração compatível com as circunstâncias clínicas, apresentado de forma transparente pelos profissionais responsáveis.

Decisões sobre embriões pedem precisão na linguagem

Na reprodução assistida, a avaliação de embriões envolve critérios técnicos que precisam ser explicados com cuidado. Expressões como “embrião bom”, “ruim” ou “perfeito” podem transmitir significados diferentes daqueles pretendidos pela equipe.

Quando há testes genéticos, é necessário esclarecer o que foi investigado e quais limitações permanecem. A ASRM ressalta, por exemplo, que o benefício do PGT-A como rastreamento de rotina para todas as pessoas em fertilização in vitro ainda não foi demonstrado. Essa informação é relevante para a discussão individual de sua indicação.

Na escuta psicológica, importa conhecer o sentido que os pacientes atribuem aos embriões e aos resultados recebidos. As interpretações podem envolver expectativas de parentalidade, experiências anteriores de perda, crenças religiosas e preocupações com doenças ou deficiências.

A discussão ética precisa considerar esses significados junto às informações clínicas e às normas aplicáveis. Referências internacionais contribuem para a reflexão, enquanto a conduta concreta deve observar a regulamentação brasileira e os deveres de cada profissão.

Fé e ciência entram na conversa por meio das pessoas

As crenças podem participar da maneira como alguém compreende a concepção, o embrião, a doação de gametas e os limites de um tratamento. Também podem oferecer apoio durante períodos de incerteza.

O profissional precisa conhecer a experiência daquela pessoa, evitando deduzir suas escolhas a partir de uma identificação religiosa. Pessoas da mesma tradição podem interpretar uma situação de formas diferentes.

Na clínica, cabe escutar o que produz conflito, quais valores estão envolvidos e como o paciente deseja considerá-los em sua decisão. A informação científica precisa ser apresentada com clareza. As convicções pessoais do profissional exigem reflexão para que não conduzam silenciosamente o atendimento.

Quando solicitado pelo paciente, o diálogo com uma referência espiritual pode integrar sua rede de apoio, respeitando sua vontade e a confidencialidade. O acompanhamento psicológico permanece orientado pela compreensão da experiência e pela liberdade de decisão.

Os limites do tratamento também precisam ser discutidos

A disponibilidade de um procedimento abre uma possibilidade que deve ser examinada em seu contexto. Benefícios esperados, riscos, custos e repercussões na vida cotidiana participam dessa avaliação.

Para algumas pessoas, continuar representa uma escolha coerente com o projeto de vida. Para outras, uma pausa ou o encerramento do tratamento passa a fazer sentido. Essas posições precisam poder ser expressas sem que o paciente se sinta obrigado a provar o quanto deseja ter um filho.

A equipe deve oferecer informações compreensíveis e condições para discutir alternativas. O psicólogo contribui ao acompanhar expectativas, reconhecer pressões e ajudar a pessoa a elaborar os efeitos das escolhas disponíveis.

Ter critérios éticos significa conseguir justificar uma conduta com base em informações relevantes, responsabilidades profissionais e respeito às pessoas envolvidas. Situações complexas podem exigir discussão interdisciplinar e consulta especializada.

Formação para participar dessas decisões com responsabilidade

A atuação em reprodução humana exige preparo para conversar sobre assuntos que alcançam a intimidade, os vínculos e o futuro das famílias. O conhecimento técnico e a reflexão ética precisam acompanhar a escuta desde o início do cuidado.

No I Encontro de Reprodução Humana e Atenção Psicossocial do Instituto Suassuna, esses dilemas serão discutidos em conexão com a prática. A proposta é oferecer referências para que os participantes reconheçam conflitos de valores, compreendam suas responsabilidades e qualifiquem o diálogo com pacientes e equipes.

O encontro nasce da Pós-Graduação em Reprodução Humana Assistida e expressa o compromisso do Instituto com a Psicologia Atuante: formação fundamentada, próxima das demandas que o profissional encontra no trabalho.

Participe para aprofundar sua compreensão sobre as decisões éticas que atravessam a reprodução humana assistida.

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Referências

AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. Informed consent in assisted reproduction: an Ethics Committee opinion. Fertility and Sterility, v. 119, p. 948–953, 2023. Acessar publicação.

ESHRE WORKING GROUP ON REPRODUCTIVE DONATION et al. Good practice recommendations for information provision for those involved in reproductive donation. Human Reproduction Open, v. 2022, n. 1, hoac001, 2022. Acessar artigo.

AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. The use of preimplantation genetic testing for aneuploidy: a committee opinion. Fertility and Sterility, v. 122, p. 421–434, 2024. Acessar publicação.

⚠️ Nota editorial: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional, produzido por profissionais de Psicologia credenciados. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado. Em caso de sofrimento psíquico, procure um psicólogo ou serviço de saúde mental.