O autismo não termina na infância. Entenda por que o diagnóstico tardio, a saúde mental e a inclusão profissional estão ganhando espaço nas políticas públicas e exigindo uma formação cada vez mais especializada dos psicólogos.

Publicado em 23 de outubro de 2026 | Instituto Suassuna

Durante muitos anos, falar sobre autismo significava, quase automaticamente, falar sobre crianças. Grande parte das pesquisas, campanhas de conscientização e serviços especializados concentrou seus esforços nos primeiros anos de vida.

Mas as crianças autistas crescem.

Elas chegam à adolescência, ingressam na universidade, procuram emprego, estabelecem relacionamentos afetivos, enfrentam dificuldades financeiras, constituem famílias e envelhecem.

Ao mesmo tempo, existem pessoas que passam décadas sem receber um diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Algumas chegam à vida adulta sem compreender determinadas características de seu desenvolvimento, suas experiências sociais ou suas necessidades de suporte.

Uma proposta legislativa brasileira, divulgada em 22 de outubro de 2026, chama atenção para essa realidade.

O Projeto de Lei nº 5538/2026 propõe ampliar a atenção à saúde mental, à prevenção do suicídio e à inclusão profissional de adolescentes e adultos autistas.

A discussão ultrapassa o campo jurídico. Ela coloca uma questão importante para a Psicologia: quantos profissionais estão preparados para avaliar, compreender e acompanhar pessoas autistas ao longo de toda a vida?

O que muda com a nova proposta de lei sobre autismo?

O Projeto de Lei nº 5538/2026, apresentado na Câmara dos Deputados, propõe mudanças na Lei nº 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana.

A proposta, que poderá receber o nome de Lei Fernanda Fialho, estabelece diretrizes relacionadas à inclusão profissional, à atenção integral à saúde mental e à prevenção do suicídio entre adolescentes e adultos autistas.

Entre os pontos discutidos estão:

  • Capacitação dos profissionais de saúde e assistência social.
  • Adaptação dos canais de apoio emocional, incluindo possibilidades de atendimento por chat.
  • Ampliação de ações preventivas relacionadas à saúde mental.
  • Apoio à inclusão das pessoas autistas no mercado de trabalho.
  • Desenvolvimento de campanhas educativas e estratégias intersetoriais.

Em outubro de 2026, a Câmara aprovou o regime de urgência para a tramitação do projeto. Isso permite acelerar sua análise, mas não significa que suas medidas já estejam em vigor.

Entretanto, outro avanço legislativo merece destaque.

A Lei nº 15.256, de 12 de novembro de 2025, já incluiu o incentivo à investigação diagnóstica do autismo em adultos e idosos nas diretrizes da política nacional de proteção às pessoas autistas.

Portanto, o Brasil começa a reconhecer de maneira mais explícita uma realidade presente nos consultórios e serviços de saúde: o autismo precisa ser compreendido ao longo de todo o ciclo de vida.

Diagnóstico tardio de autismo: o que acontece quando a descoberta vem depois dos 30 ou 40 anos?

Imagine uma pessoa de 42 anos que, desde a infância, enfrenta dificuldades para compreender determinadas interações sociais.

Durante sua trajetória, ouviu repetidamente que precisava se esforçar mais para fazer amizades, participar de reuniões ou lidar com mudanças inesperadas.

Conseguiu estudar, trabalhar e manter relacionamentos, mas desenvolveu estratégias para suportar situações que lhe causavam grande desgaste.

Anos depois, ao procurar acompanhamento psicológico, iniciou uma investigação clínica e recebeu o diagnóstico de autismo.

Essa situação representa uma possibilidade entre muitas trajetórias de diagnóstico tardio.

Para algumas pessoas, o diagnóstico oferece uma nova compreensão sobre experiências anteriores. Para outras, pode provocar dúvidas, sentimentos ambivalentes e necessidade de reorganizar aspectos de sua identidade.

O reconhecimento do autismo na vida adulta exige atenção à história do desenvolvimento, às experiências individuais, às características cognitivas e às condições de saúde mental que podem coexistir com o TEA.

É nesse contexto que a avaliação psicológica e neuropsicológica pode contribuir para uma compreensão mais abrangente da pessoa.

A investigação precisa ser conduzida com critérios técnicos e instrumentos adequados. Nenhum teste isolado deve ser tratado como suficiente para determinar o diagnóstico.

As diretrizes internacionais do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomendam avaliações abrangentes que considerem a trajetória de desenvolvimento, o funcionamento atual, as condições associadas e os diferentes contextos da vida cotidiana.

Para os profissionais interessados nesse campo, a Pós-Graduação em Neuropsicologia e Avaliação Psicológica Integradas do Instituto Suassuna oferece formação em avaliação psicológica, funcionamento cognitivo, psicometria e processos de investigação clínica.

Autismo, ansiedade e depressão: por que precisamos falar sobre saúde mental?

A saúde mental de adultos autistas constitui uma área especialmente importante para a pesquisa e para a prática profissional.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada por Hollocks e colaboradores, em 2019, reuniu 35 estudos sobre ansiedade e depressão em adultos com TEA.

Os pesquisadores encontraram estimativas combinadas de prevalência atual de aproximadamente 27% para transtornos de ansiedade e 23% para transtornos depressivos.

Esses números precisam ser interpretados considerando as limitações dos estudos, especialmente a heterogeneidade das amostras e a concentração de participantes provenientes de serviços clínicos.

Ainda assim, indicam a importância de avaliar possíveis condições associadas ao autismo.

O sofrimento psicológico pode estar relacionado a diferentes experiências, como dificuldades de comunicação, rejeição social, situações de preconceito, sobrecarga sensorial e falta de suporte.

Outro aspecto relevante é a camuflagem social, caracterizada pelo uso de estratégias para ocultar ou compensar determinadas características autistas em situações sociais.

Algumas pessoas relatam intenso esforço para manter comportamentos socialmente esperados, o que pode contribuir para experiências de exaustão.

É fundamental compreender que essas experiências variam entre indivíduos. O autismo não determina, por si só, a presença de ansiedade, depressão ou sofrimento psicológico.

A atuação do psicólogo exige compreender cada situação, identificar condições associadas e desenvolver intervenções compatíveis com as necessidades da pessoa.

Prevenção do suicídio e autismo: um tema que exige profissionais preparados

A proposta legislativa também direciona atenção à prevenção do suicídio em pessoas autistas.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2024, por Santomauro e colaboradores, analisou dados sobre mortalidade por suicídio nessa população.

O estudo encontrou um risco relativo combinado de aproximadamente 2,85 em comparação com pessoas não autistas.

Esse achado não deve ser utilizado para presumir o risco individual de um paciente. Ele indica a necessidade de ampliar a investigação e os recursos de prevenção.

A avaliação clínica precisa considerar fatores como sofrimento psicológico, condições psiquiátricas coexistentes, experiências de violência, isolamento social, dificuldades de comunicação e disponibilidade de redes de apoio.

Também é importante adaptar os serviços às necessidades das pessoas atendidas.

Para alguns adultos autistas, por exemplo, uma conversa por mensagens pode ser uma alternativa mais acessível do que uma ligação telefônica. Outros podem precisar de ambientes com menor estimulação sensorial ou de informações apresentadas de maneira mais objetiva.

A formação profissional precisa contemplar essas possibilidades e desenvolver competências para o acolhimento, a avaliação do sofrimento e a elaboração de estratégias de cuidado.

Autismo na vida adulta e mercado de trabalho: inclusão exige mais do que oportunidades de emprego

A inclusão profissional é outra questão central da proposta legislativa.

O acesso ao trabalho envolve aspectos que ultrapassam a contratação formal.

Um adulto autista pode possuir conhecimentos técnicos e competências profissionais relevantes, mas enfrentar dificuldades em ambientes de trabalho excessivamente barulhentos, com comunicação ambígua ou alterações constantes de rotina.

Nesses contextos, adaptações podem favorecer a participação profissional.

As possibilidades incluem organização mais clara das tarefas, comunicação objetiva, atenção às condições sensoriais, previsibilidade das atividades e adequações individualizadas.

A diretriz NICE CG142 recomenda considerar programas de emprego apoiado para adultos autistas que enfrentam dificuldades para obter ou manter trabalho.

Esses programas podem contemplar preparação para entrevistas, apoio à adaptação profissional, orientação aos empregadores e acompanhamento após a contratação.

A Psicologia possui possibilidades de contribuição nesse processo por meio de avaliação de necessidades, orientação profissional, acompanhamento psicológico e colaboração com equipes responsáveis pela inclusão.

A formação do psicólogo precisa acompanhar a vida adulta da pessoa autista

O crescimento do debate sobre autismo em adultos amplia a necessidade de profissionais capazes de trabalhar com avaliação, comportamento, saúde mental, autonomia e inclusão social.

Ao longo da prática clínica, o psicólogo pode encontrar adultos autistas que procuram atendimento por motivos muito diferentes.

Alguns desejam compreender suas características e investigar a possibilidade de um diagnóstico tardio. Outros buscam acompanhamento para ansiedade, dificuldades relacionais, organização da rotina ou sofrimento associado ao trabalho.

Essas situações exigem conhecimentos sobre desenvolvimento humano, avaliação psicológica, análise do comportamento e intervenções clínicas fundamentadas em evidências.

O Instituto Suassuna desenvolve suas propostas de formação com o objetivo de aproximar o conhecimento científico das situações encontradas pelos profissionais de Psicologia.

A instituição trabalha com o compromisso de formar psicólogos atuantes, valorizando o ensino com professores que conhecem as demandas da prática profissional.

Entre suas formações, destaca-se a Pós-Graduação em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) ao Desenvolvimento Atípico.

A especialização contempla princípios da Análise do Comportamento Aplicada, avaliação comportamental, mensuração de resultados, desenvolvimento de habilidades, planejamento de intervenções e supervisão.

Esses conhecimentos oferecem fundamentos relevantes para compreender comportamentos e planejar intervenções individualizadas. A atuação especificamente com adultos autistas, contudo, também exige preparação compatível com as particularidades dessa fase da vida.

O objetivo de uma intervenção deve considerar as necessidades, os interesses, as escolhas e a qualidade de vida da própria pessoa autista.

O profissional também precisa reconhecer os limites dos procedimentos utilizados e avaliar continuamente os resultados do acompanhamento.

Neuropsicologia e avaliação psicológica: outras possibilidades de aprofundamento

Para psicólogos interessados no diagnóstico tardio e na investigação do funcionamento cognitivo, a formação em Neuropsicologia e Avaliação Psicológica Integradas oferece possibilidades específicas de aprofundamento.

Já a Pós-Graduação em Reabilitação Neuropsicológica contempla conhecimentos relacionados à intervenção sobre necessidades cognitivas e funcionais em diferentes condições clínicas.

As diferentes especializações podem contribuir para ampliar repertórios profissionais, respeitando suas finalidades específicas.

A escolha de uma pós-graduação precisa estar relacionada ao campo em que o psicólogo pretende atuar e às competências que deseja desenvolver.

Essa é uma das razões pelas quais o Instituto Suassuna valoriza a relação entre conhecimento científico, experiência profissional e formação continuada.

Autismo além da infância: o papel das organizações sociais

A ampliação da atenção à vida adulta também representa um desafio para as organizações que desenvolvem ações de saúde, educação e inclusão social.

O IBCES, por meio de sua atuação em projetos sociais e iniciativas voltadas ao desenvolvimento humano, identifica nesse cenário uma possibilidade de criação de programas dedicados às necessidades de adultos autistas.

Uma proposta denominada Autismo Além da Infância poderia reunir ações de acolhimento psicossocial, orientação às famílias, avaliação de necessidades de suporte, formação de profissionais e articulação com redes de inclusão profissional.

A estruturação de iniciativas dessa natureza deve considerar a participação das próprias pessoas autistas, o planejamento de resultados e a avaliação contínua das ações desenvolvidas.

A necessidade de ampliar o cuidado existe independentemente da aprovação de novas leis.

O autismo acompanha a vida inteira. A formação profissional também precisa evoluir.

A discussão sobre o PL 5538/2026 evidencia mudanças importantes na maneira como o Brasil aborda as necessidades das pessoas autistas.

O diagnóstico tardio, a atenção à saúde mental, a prevenção do suicídio e a inclusão profissional são dimensões que precisam integrar a discussão sobre o cuidado ao longo da vida.

Para a Psicologia, esse cenário reforça a importância de uma formação que permita compreender diferentes trajetórias de desenvolvimento e responder às demandas de cada pessoa com responsabilidade técnica.

As necessidades de uma criança autista não são necessariamente as mesmas de um adulto de 35 anos ou de uma pessoa autista de 70 anos.

Por isso, o conhecimento sobre autismo precisa acompanhar as mudanças que acontecem ao longo do desenvolvimento humano.

Quer ampliar sua atuação profissional no campo do autismo?

O Instituto Suassuna oferece especializações que contribuem para o aprofundamento de conhecimentos em comportamento, desenvolvimento atípico, avaliação psicológica e Neuropsicologia.

Conheça nossa Pós-Graduação em ABA ao Desenvolvimento Atípico e descubra como ampliar sua formação em Análise do Comportamento Aplicada.

Você também pode conhecer nossas pós-graduações em Psicologia e encontrar uma formação alinhada aos seus objetivos profissionais.

Instituto Suassuna. Além da abordagem. Acima da imagem. À frente da pesquisa.

Texto compilado por Dr. Danilo Suassuna.

Referências

BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

BRASIL. Lei nº 15.256, de 12 de novembro de 2025. Incentiva a investigação diagnóstica do TEA em adultos e idosos. Consultar legislação.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 5538/2026. Inclusão no trabalho, atenção à saúde mental e prevenção do suicídio de adolescentes e adultos autistas.

HOLLOCKS, M. J. et al. Anxiety and depression in adults with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis. Psychological Medicine, v. 49, n. 4, p. 559–572, 2019. DOI: 10.1017/S0033291718002283.

SANTOMAURO, D. F. et al. The global burden of suicide mortality among people on the autism spectrum: A systematic review, meta-analysis, and extension of estimates from the Global Burden of Disease Study 2021. Psychiatry Research, v. 341, 116150, 2024. DOI: 10.1016/j.psychres.2024.116150.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management. Clinical Guideline CG142. Consultar diretrizes.

UOL. Projeto de lei prevê apoio à saúde mental de autistas na vida adulta. 22 de outubro de 2026. Consultar notícia.

Nota editorial: este conteúdo possui finalidade informativa e educacional. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado.

⚠️ Nota editorial: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional, produzido por profissionais de Psicologia credenciados. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento psicológico individualizado. Em caso de sofrimento psíquico, procure um psicólogo ou serviço de saúde mental.