“Eu sei que ninguém falou isso, mas tenho certeza de que me acharam ridículo.”
Uma frase assim traz mais de uma experiência. Há o modo como a pessoa se vê, o modo como percebe quem está ao redor e a ideia que faz sobre o que os outros pensam dela. Na psicoterapia, acompanhar essas dimensões pode ajudar a entender por que certas situações produzem tanto sofrimento.
A Clínica dos Três Olhares, proposta pelo psicólogo Ewerton Helder Bentes de Castro, organiza essa escuta em três movimentos: o olhar que lanço sobre mim, o olhar que lanço sobre o outro e o olhar que lanço sobre o olhar do outro. A proposta se insere na perspectiva da Psicologia Fenomenológica e tem sido discutida em trabalhos sobre diferentes contextos clínicos. doity.com.br
Como eu me vejo, como vejo o outro e como imagino que sou visto
O primeiro olhar se volta para a maneira como a pessoa se percebe. Alguém pode dizer: “Sou um fracasso”, “não dou conta” ou “sempre estrago tudo”. Na terapia, essas frases podem ser o começo de uma conversa: em que situações essa percepção aparece? Como a pessoa passou a se descrever dessa forma? O que essa imagem de si permite ou impede em sua vida?
O segundo olhar considera como ela vive suas relações. Uma pessoa pode perceber a família como acolhedora em alguns momentos e invasiva em outros. Pode experimentar o trabalho como espaço de reconhecimento ou de cobrança constante. O terapeuta procura entender como aquela relação é vivida por quem está ali, em vez de decidir rapidamente o que o outro representa.
O terceiro olhar aproxima a conversa de uma experiência comum: imaginar o que os outros pensam de nós. “Minha chefe deve achar que sou incompetente.” “Meus amigos perceberam que eu estava deslocado.” Às vezes houve uma fala ou uma atitude concreta. Em outras situações, a pessoa tenta preencher uma incerteza. Escutar essa diferença ajuda a compreender o que aconteceu e o sentido que a experiência ganhou.
Os três olhares se misturam. Uma imagem dura de si pode influenciar a forma de perceber os outros e levar alguém a antecipar críticas, mesmo quando não sabe o que as outras pessoas pensam. Isso não torna a experiência menos real para quem sofre. Torna importante investigar como ela se constitui em cada situação.
Uma situação que pode aparecer na clínica
Pense em uma psicóloga no início da carreira que evita falar sobre seu trabalho. Ela conta: “Ainda não tenho nada relevante para oferecer”. Ao longo da conversa, percebe os colegas como profissionais confiantes e imagina que eles a julgariam despreparada.
A escuta pode acompanhar os três movimentos: como ela se enxerga, como percebe os colegas e como imagina que eles a enxergam. Depois, pode se aproximar do cotidiano: o que acontece quando pensa em divulgar seu trabalho? Que lembranças vêm à cabeça? O que ela sente no corpo? O que deixa de fazer por medo desse julgamento?
Essas perguntas não formam um roteiro obrigatório. São possibilidades para manter a conversa ligada à experiência concreta da pessoa. O caminho depende do que ela apresenta e do que se revela no encontro terapêutico.
O que muda quando o terapeuta também se observa
Na Clínica dos Três Olhares, a atenção inclui a relação entre terapeuta e pessoa atendida. O profissional também olha, interpreta, sente e responde. Pode, por exemplo, concluir cedo demais que entendeu uma situação ou insistir em uma explicação que faz sentido para ele, mas ainda não para quem está em atendimento.
Observar a própria participação ajuda o terapeuta a voltar ao relato e verificar sua compreensão. “Entendi que você sentiu vergonha quando isso aconteceu. É assim que você viveu aquele momento?” Uma pergunta simples pode abrir espaço para a pessoa confirmar, corrigir ou encontrar palavras mais próximas do que sentiu.
Em uma apresentação sobre Psicologia Fenomenológica, Castro associa a proposta dos três olhares à tríade acolher, escutar e cuidar. A pessoa é compreendida em sua situação concreta e em suas possibilidades, sem que uma hipótese diagnóstica, sozinha, esgote a compreensão de sua experiência. doity.com.br
Uma proposta clínica em diálogo com questões atuais
As relações também se constroem nas redes sociais. Uma pessoa pode acompanhar as imagens de encontros e viagens dos outros e concluir que está ficando de fora. Pode se perguntar como é vista, medir a própria vida pelas publicações alheias ou se sentir invisível mesmo estando conectada.
Um estudo de caso publicado em 2026 discute a solidão digital a partir da psicoterapia fenomenológico-existencial e da Clínica dos Três Olhares. O trabalho oferece uma análise situada de uma experiência. Por ser um estudo de caso, não permite afirmar que essa proposta produza os mesmos resultados para todas as pessoas. www.researchgate.net
Essa cautela também faz parte de uma comunicação responsável sobre psicoterapia. A Clínica dos Três Olhares oferece conceitos para orientar a compreensão clínica. Os materiais disponíveis ajudam a conhecer a proposta e suas aplicações, mas não bastam para afirmar que ela seja superior a outras abordagens.
A fenomenologia contribui para a clínica ao manter a atenção na experiência vivida e na maneira como ela ganha sentido. Na psicoterapia, isso pede disponibilidade para escutar sem reduzir rapidamente a pessoa a uma categoria. Gomes discute a passagem do método fenomenológico para a prática psicoterapêutica e os desafios envolvidos nessa articulação. www.scielo.br
Para profissionais e estudantes, estudar essa perspectiva pode ampliar as perguntas feitas diante do sofrimento: como a pessoa se percebe? Como vive suas relações? Que imagem faz de si no olhar dos outros? E como a presença do terapeuta participa dessa experiência?
Quem busca atendimento psicológico pode conhecer o Todos Cuidados, projeto do Instituto Suassuna que oferece triagem para psicoterapia com valores sociais. Psicólogos interessados em aprofundar sua formação também podem conhecer as pós-graduações do Instituto Suassuna e seguir construindo uma prática comprometida com uma Psicologia Atuante.
Referências
CASTRO, Ewerton Helder Bentes de. Psicologia fenomenológica: a compreensão dos diversos olhares na prática clínica. In: II Congresso de Psicologia, Fenomenologia e Filosofias da Existência do Norte e Noroeste Fluminense. Anais, 2025. doity.com.br
CASTRO, Ewerton Helder Bentes de. Clínica fenomenológico-existencial e Clínica dos Três Olhares: um estudo de caso sobre solidão digital em contexto de redes sociais. Revista AMAzônica, 2026. www.researchgate.net
FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia fenomenológica: fundamentos, método e pesquisas. São Paulo: Pioneira, 1993.
GOMES, William B. Clínica fenomenológica: do método de pesquisa para a prática psicoterapêutica. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 26, número especial, p. 81–93, 2010. DOI: 10.1590/S0102-37722010000500007. www.scielo.br