Enquanto a paternidade não chega…

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Projetos  de  vida fazem parte  da  trajetória  humana  e  são fontes  de motivação, amadurecimento, e desenvolvimento pessoal.  O ciclo vital do indivíduo, do casal ou  da  família  compõe-se  de  eventos  esperados  e  inesperados,  no  entanto, quando os inesperados aparecem se desencadeia, muitas vezes, um processo de  difícil  elaboração. Assim  é  quando  não  se  consegue  realizar  o  projeto  de formação  de  família,  o  projeto  parental,  um  dos  mais  importantes  projetos  de vida, que responde à maioria dos projetos expectados por casais e indivíduos na idade adulta.

        Datas  comemorativas  como  o  dia  dos  pais  reacendem  a  questão:  e  aqueles homens que lutam para ser pais e ainda não conseguiram? Como é isso? Que luta é esta? Como se sentem? Como se colocam no contexto social? Como o contexto  social  responde  a  isso?  Objeto  de  sentimentos  de  vergonha,  culpa, fracasso, a  infertilidade  é  sentida  por  aqueles  que a  experimentam  com  muita dor, angústia e sofrimento, pois procriar é como um dever vital, que vai além do desejo  individual. Traz uma norma,  acompanhada  de expectativa  social que pode funcionar como um algoz. Além disso, há mitos ainda presentes nos dias de hoje que associam infertilidade à virilidade e a potência sexual e fazem muitos homens sofrerem.

       Ser/estar   infértil   é   ainda   frequentemente   vivido   como   impotência,   nos esconderijos  da  vida  emocional  masculina.  Um  grande  desafio….  e  uma oportunidade. Assim, temos tido exemplos de homens que encaram a situação e junto de suas companheiras ou companheiros, a ressignificam. Permitem-se sentir,  dão  voz  às  suas  emoções  e  sentimentos,  vivem  o  luto  decorrente  das perdas que experimentam –da autoimagem e autoconfiança, da ideia de corpo fértil e potente, da fertilidade natural, da possibilidade de ter filhos biológicos, de deixar  herdeiros,  continuar  a  linhagem  genética,  dar  netos  aos  pais,  dentre outras.

        Adentram  suas  cavernas  emocionais  e  se  permitem  pensar  a  paternidade  de modo  diferente  da  que  aprenderam  que  deveria  ser.  Tarefa  nada  fácil,  mas possível.  Se  as  situações  de  infertilidade forem  visibilizadas  e  compreendidas pelo contexto familiar e social do homem, como problemas que atingem cerca de 15% da população, se este contexto as desmistifica e as dissocia das ideias de masculinidade e virilidade, se se promove maior conhecimento e informação sobre a saúde reprodutiva por meio da psicoeducação, se o contexto é capaz de oferecer  suporte  emocional  ao  homem,  ao  casal,  certamente  a  situação impactante  e  dolorosa  pode  se  amenizar, colaborando  para encontrar novos caminhos.

        Afinal, em plena segunda década do século XXI, já convivemos com múltiplas formas  de  ser  pai  e  ser  mãe  que  alicerçam  novas  configurações  familiares e sinalizam a  necessidade  recorrente  que  a  vida  traz  de  “fazer  o  update”  de conceitos, ideias, crenças, pensamentos,….. Enquanto  a  paternidade  não  chega,  os  homens  podem  se  permitir  dar  voz  às suas  emoções.  E  seu  entorno,  pode  refletir  sobre  sua  contribuição  para  o sofrimento deles.

Psicóloga Kátia M. Straube

CRP 08/00308

Especialista em Psicologia Clínica e da Reprodução Humana.

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